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São Mateus 5:1-12

No trecho do Evangelho separado pela Igreja Cristã para esse dia especial – Dia de todos os Santos e Santas – vemos na boca de Jesus as promessas da ação de Deus na vida humana;

As bem-aventuranças descritas no capítulo 5 do Evangelho de Mateus, dos versículos 1 a 12 nos confrontam com a realidade do Reino de Deus que está em permanente desconformidade com os padrões e valores de nossa sociedade (dos reinos deste mundo).

Jesus chama de felizes justamente aquelas pessoas despossuídas de poder, vulneráveis, que estão sujeitas a várias formas de violências e de opressão, as que buscam reagir, as que são resilientes, as que são solidárias, e as que não se deixam contaminar com a indiferença.

A promessa do Reino de Deus mostra-se no paradoxo das bem-aventuranças: as pessoas que, de acordo com os padrões sociais, são vistas como sem valor e sem voz, aquelas cujas vidas não importam para uma sociedade baseada em status, é que são escolhidas por Deus, a elas é prometida salvação, a elas é dada a força que tudo transforma.

É importante reforçar aqui que a interpretação a respeito das bem-aventuranças sempre foi controversa e, desde os primeiros séculos de nossa era cristã até os nossos dias, não há consenso a respeito delas.

Mateus é muitas vezes “acusado” de espiritualizar as bem-aventuranças em contraposição a Lucas, que as coloca mais como convocação a resistência. Sim, é fato que, na comparação com Lucas, Mateus modificou ou ampliou as bem-aventuranças contidas na fonte Q. E isso se deve à situação da(s) sua(s) comunidade(s).

A(s) comunidade(s) de Mateus foram marcadas com dor e perseguição. O contexto histórico de Mateus e de sua(s) comunidade(s), evidentemente foi muito relevante na sua narrativa, Mateus dirige seu evangelho para a(s) comunidade(s) judaico cristã(s) marcada(s) pela destruição do templo (70 d.C.) e inclui nas bem-aventuranças a experiência do povo enlutado que pranteia essa enorme perda.

Mas também o luto e o pranto podem ser sinais de inconformidade com a situação de sofrimento e, ao mesmo tempo, sinais de esperança, não nos poderes desse mundo, mas na ação transformadora de Deus.

Vamos então olhar para cada uma das bem-aventuranças descritas por Mateus: Felizes as pessoas pobres no espírito. Geralmente essa expressão é entendida como uma metáfora que compreende todas as pessoas (pobres e ricas) que estejam “espiritualmente vulneráveis”. No entanto, para compreendermos Mateus, precisamos lembrar que na tradição judaica o espírito caracterizava a pessoa como um todo. A compreensão judaica não era dualista, não havia essa ideia de separação entre vida material e vida espiritual, a palavra pobre, na expressão pobres no espírito, denota uma situação de necessidade e de sofrimento abrangentes, que abarca a pessoa como um todo, na totalidade de sua existência.

Assim também em relação às pessoas mansas. Mateus se refere as pessoas que não praticam violência, que não se entregam à ira. Mas isso não significa resignação frente aos sofrimentos, e sim a prática do respeito e do amor como um ato de resistência. Elas herdarão a terra!

Felizes as pessoas que têm fome e sede de justiça, pois serão saciadas. Podemos dizer que essa promessa se destina tanto para as pessoas que são injustiçadas quanto para aquelas que sofrem diante das injustiças praticadas contra outras pessoas. Trata-se então tanto de vítimas da injustiça quanto de pessoas que sentem empatia e são solidárias com essas vítimas.

A prática da misericórdia, de colocar seu coração junto das pessoas que sofrem representa a suma das obras de amor. A misericórdia é a prática da justiça dentro de um mundo com estruturas injustas. Praticar a misericórdia corresponde, para Jesus, praticar a vontade de Deus.

Ter coração puro significa ser totalmente obediente a Deus, visto que o coração era entendido como sendo o centro da vontade e das decisões humanas. Assim, a pureza de coração abrange a totalidade das relações humanas em todos os níveis. A pureza de coração não conduz a um isolamento e a uma espiritualidade individualizante, ao invés disso concretiza o desejo de Deus de que a vida humana seja vivida em verdade, acolhimento e amor.

Ser pacificadora, significa construir a paz. E a expressão Paz não se refere aqui a um sentimento interno de bem estar ou de tranquilidade e calma, Paz é integridade de vida. Pacificadoras são as pessoas que promovem paz entre pessoas, situações e povos que estão divididos. Seja essa ação grande ou pequena, tenha ela proporções a nível pessoal ou internacional.

Felizes as pessoas perseguidas. A promessa do Reino para pessoas que sofrem esse processo de empobrecimento amplo torna-se realidade já agora: delas é o Reino dos céus (de Deus). O Reino que se faz presente no reverso da história – trata-se de um futuro escatológico que já vai acontecendo, ou seja, o Reino dos céus não é além, não existe apenas no futuro, é antes aqui, é um outro jeito de viver o presente, é um outro mundo possível.

Concluindo: Mesmo diante da aparente “espiritualização” das bem-aventuranças feita por Mateus é extremamente importante frisar que as bem-aventuranças não são fruto de desejos piedosos desenraizados da realidade, antes localizam-se no aqui e agora e são a norma do Evangelho. Denotando que a alegria pode existir dentro das situações de sofrimento e dor. A construção desta alegria se dá na reversão das relações que já agora começam a ser inauguradas, e onde a justiça é almejada e praticada, mesmo nos menores sinais.

É importante perceber que o que é declarada como feliz não é uma vida religiosa interior, mas sim a pessoa cristã que vive a sua fé no mundo em relação com outras pessoas.

O que Mateus anuncia para a(s) sua(s) comunidade(s) é válido para nós, hoje. As bem-aventuranças devem ser interpretadas para dentro dos nossos contextos de tal forma que nos ajudem a permanecermos fiéis a aliança que Deus firmou conosco através de Jesus Cristo, o qual abriu e ampliou para nós um caminho de esperança em meio a um mundo de sofrimento e de dor.

Neste ano de 2020, possivelmente com uma intensidade ainda maior do que nos anos anteriores, podemos afirmar que há muito sofrimento e dor nas realidades de nossas vidas, inseridas no contexto de uma pandemia que escancarou as desigualdades que existem a nossa volta. Que potencializou a fome, que acirrou o racismo e os discursos de ódio, o extermínio das populações negras, ribeirinhas, indígenas (quer seja pelas doenças, quer seja pelas violências), e que desmascarou a ganância de quem não tem nenhum compromisso com a vida de nossa Casa Comum, e a falta de amor e de cuidado para com justiça ambiental (haja visto as queimadas e inúmeros outros crimes ambientais que estão acontecendo na Amazônia e no mundo).

2020 desnudou diante de nossos olhos as muitas facetas do mal, e por isso mesmo é preciso, que nós, discípulos e discípulas de Cristo atentemos e nos se sensibilizemos para situações de sofrimento e, ali, proclamemos esse Evangelho que convida pessoas para o aprendizado da esperança atuante.

As bem-aventuranças, lidas a partir e para dentro de nossa realidade atual, revelam-se como fonte de força, esperança e novas perspectivas de vida. Pois elas também nos mostram um jeito especial de Deus se manifestar, de agir e de se fazer presente nesse nosso mundo.

Neste Dia de Todos os Santos e Santas lembremos que a graça de Deus já está sendo experimentada, assim como foi por aquelas pessoas que nos precederam, nas diversas gerações.

Felizes /bem-aventurados(as) – esse é o anúncio que ouvimos.

Que os santos e santas de ontem, de hoje e de sempre, ainda que sujeitos a opressão, a violência, as enfermidades do corpo, da mente e do “coração” (ou da alma), nunca deixem de proclamar com suas vozes e com suas vidas que, ainda que os sinais sejam de morte, que as situações de injustiça pareçam sobrepor-se, Deus age no reverso da história, e com sua ação tudo transforma.

Amém.

by Bishop Marinez Rosa dos Santos Bassotto, Anglican Diocese of the Amazon / Diocese Anglicana da Amazônia

Link: Sustainable Preaching - All Saints Day / Dia de todos os Santos e Santas [by Bishop Marinez]


 

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