O Bispo D. Jorge Pina Cabral participou, a convite do Presidente da Sociedade Compass Rose, Bispo Daniel Gutiérrez, na Assembleia anual deste organismo, que decorreu de 20 a 22 de outubro em Londres, e dirigiu-se aos presentes com uma apresentação sobre a História e a Missão da Igreja Lusitana.
A Sociedade Compass Rose é uma entidade Anglicana criada há 30 anos para apoiar o trabalho desenvolvido nas diversas estruturas da Comunhão.
Comunicação na Assembleia Geral da Compass Rose
21 de outubro 2026
«Juntos aos pés da Cruz de Jesus Cristo»
Prezados irmãos e irmãs em Cristo,
A paz de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco!
Chamo-me Jorge e, em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite que me foi formulado pelo Bispo Daniel Gutiérrez para estar convosco e apresentar a história e a missão da Igreja Lusitana em Portugal.
No entanto, gostaria de iniciar a minha intervenção prestando uma homenagem ao Reverendo Cónego John Peterson, antigo Secretário-Geral da Comunhão Anglicana e presidente emérito da Compass Rose Society.
Conheci o Reverendo Cónego Peterson no final do século passado, altura em que o meu antecessor, bispo Fernando Soares, estabeleceu com ele uma boa relação pessoal e de trabalho. Lembro-me bem da primeira visita a Portugal do Cónego Peterson para participar num sínodo da nossa Igreja, e de como se recolheu num longo tempo de oração antes de se dirigir aos membros do sínodo. Esta espiritualidade e sensibilidade para a diversidade da Comunhão Anglicana, em especial para as Igrejas minoritárias, levou o Cónego John Peterson a escolher Portugal, mais concretamente a cidade do Porto, para realizar o encontro dos primazes no ano 2000. Para uma pequena Igreja, como a nossa, recentemente integrada na Comunhão Anglicana, receber o encontro dos Primazes foi uma bênção, que permitiu ao nosso povo compreender melhor a organização e a diversidade da Comunhão Anglicana, representada pelos Primazes vindos de todo o mundo. Na sua homilia na celebração eucarística deste encontro, o então Arcebispo de Cantuária, George Carey, referindo-se à Igreja Lusitana, afirmou:
«Sentimos que é muito apropriado estarmos aqui a demonstrar apoio e solidariedade para com uma das mais pequenas Igrejas da nossa Comunhão. Costuma dizer-se que small is beautiful e tudo o que ouvimos acerca da Igreja Lusitana confirma isso mesmo.»
Foi nesse encontro dos Primazes, no Porto, no ano de 2000, que, pela primeira vez, as questões relacionadas com a ordenação de mulheres e a sexualidade humana geraram tensão e muita discussão entre os presentes. Na sua declaração final, após a escuta da Palavra de Deus na Carta de São Paulo aos Efésios, os Primazes foram capazes de afirmar conjuntamente algo que, para nós, hoje, permanece essencial e que deve ser seguido. Eles afirmaram:
«estamos conscientes de que todos permanecemos juntos aos pés da Cruz de Cristo, e por isso sabemos que, ao nos afastarmos uns dos outros, afastamo-nos também da Cruz de Cristo.»
O Encontro do Porto mostrou como a Bíblia, muitas vezes foi fonte de disputa e divisão, pode também ser um catalisador de unidade. A lição que este encontro de Primazes nos trouxe e que continua atual é a de que devemos aprender a ler e conversar em conjunto sobre a Bíblia e esta prática deve acontecer em todos os níveis da Igreja, ultrapassando diferenças e divisões entre províncias, dioceses e paróquias. A Bíblia é um texto partilhado por todos os cristãos; chama imperativamente os cristãos a estarem unidos e em particular os cristãos que pertencem à mesma família eclesial como é o caso da nossa muito amada Comunhão Anglicana.
Com este espírito, a Igreja Lusitana tem vindo a desenvolver a sua missão no contexto das Igrejas em Portugal, liderando o movimento ecuménico e procurando a unidade e a comunhão com a Igreja Católica Romana e com as demais Igrejas em Portugal. Sendo uma Igreja minoritária que viveu um período de perseguição religiosa durante a ditadura fascista em Portugal, compreendemos hoje que, na nossa vulnerabilidade e simplicidade, muitas vezes nos encontramos aos pés da cruz de Cristo, partilhando a sua paixão, bem como o abandono e a indiferença de muitos. No entanto, é também neste contexto de sofrimento e exigência que nos sentimos mais livres para anunciar Cristo e agir como agentes de reconciliação. A história do povo português é a história de navegadores e marinheiros que descobriram novos continentes e deram novos mundos ao mundo.
Vivendo no extremo sul da Europa, temos uma vocação atlântica que nos leva a olhar para África e para as Américas, sem deixar de ser europeus. Seguindo esta vocação, a Igreja Lusitana lidera atualmente a Rede Lusófona da Comunhão Anglicana, uma das redes oficiais da Comunhão Anglicana. A Rede Lusófona integra a Igreja Episcopal do Brasil e as Igrejas Anglicanas de Moçambique e de Angola. Somos Igrejas com um passado histórico comum e que celebram a mesma língua: o português. A nossa cultura lusófona comum influência a nossa presença na Comunhão Anglicana, enriquecendo-a com uma maior diversidade cultural e linguística. Colaboramos na missão de Deus, partilhando recursos espirituais, humanos e materiais entre as igrejas, e desenvolvendo projetos comuns nas áreas da juventude, do estudo bíblico e teológico, e do apoio social e humano. Temos pontos de vista diferentes em relação às questões da sexualidade humana e da igualdade de género e acredito que estas diferenças resultam dos nossos contextos culturais, sociais e religiosos. No entanto, alimentados pela Palavra de Deus, temos permanecido aos pés da cruz de Cristo e temos trabalhado para manter a unidade espiritual em paz.
Assumindo a sua vocação para o encontro e a cooperação com outras Igrejas, a Igreja Lusitana elaborou um plano de missão para o período até 2030, que visa a criação, em conjunto com a Igreja Espanhola Reformada Episcopal, de uma nova província para a Comunhão Anglicana, denominada Província Anglicana Ibérica, que abrangerá, querendo Deus, Portugal e Espanha. Ambas as Igrejas, a Lusitana e a Espanhola Reformada Episcopal, são nativas, tendo sido criadas em 1880. Os Sínodos constitutivos de ambas as Igrejas foram presididas pelo Bispo Henry Riley proveniente da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e que se veio a tornar o primeiro Bispo da Igreja Episcopal no México. As Igrejas em Portugal e Espanha, não são o resultado de qualquer movimento missionário, mas sim Igrejas constituídas por movimentos religiosos nacionais que procuram ser fiéis à Igreja Católica dos primeiros séculos, incorporando os princípios da Reforma Protestante.
A Europa atual enfrenta os desafios da guerra, das migrações, do populismo e da utilização indevida da religião. Por seu turno, a Europa está também a tornar-se cada vez mais secular e, na maior parte do continente, o papel das Igrejas já não pode ser dado como garantido. Neste contexto, a partilha ecuménica e a união entre igrejas da mesma família eclesial são recomendáveis. As Igrejas de Portugal e de Espanha estão, pois, empenhadas no desenvolvimento desta nova província anglicana, que, ao abranger Portugal e Espanha, pretende renovar o testemunho Anglicano na Europa Continental. Continuaremos naturalmente a colaborar com as restantes jurisdições anglicanas na Europa: The Convocation of Episcopal Churches in Europe e a Diocese in Europe da Church of England. Novos tempos e desafios para as Igrejas requerem novas visões e estruturas para a Igreja de Jesus Cristo. A Igreja de Jesus Cristo não é um fim em si mesmo, mas quer-se que seja um caminho para o Reino de Deus que Jesus inaugurou. A Igreja é um sacramento do Reino de Deus e como tal as Igrejas não podem estar presas a estruturas do passado.
Procurando estar aos pés da Cruz de Jesus Cristo e junto dos mais sofridos, a Igreja Lusitana tem desenvolvido nos últimos anos, projetos concretos de acolhimento e integração de migrantes que buscam Portugal para um novo projeto de vida. Até ao momento e nas suas diversas paróquias e comunidades, a Igreja Lusitana já apoiou mais de 300 pessoas nas áreas do apoio alimentar, da comparticipação em despesas de saúde, promoção da empregabilidade, acesso à habitação e outras áreas de apoio. Consideramos que o apoio aos migrantes e refugiados é um imperativo do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo e que os migrantes e refugiados na sua diversidade cultural e religiosa são também uma fonte de bênção para as Igrejas que os acolhem. A nossa atitude hoje no presente para com os migrantes definirá a Igreja que seremos no futuro.
Portugal enquanto pais iniciou agora o processo da comemoração dos seus 900 anos de história, ou seja, de constituição enquanto pais no século doze. O nome da Igreja – Lusitana – vem precisamente das origens de Portugal e da região que os romanos estabeleceram na Ibéria e que se chamava de Lusitânia. Deste modo a Igreja Lusitana fundada em 1880 (século 19) pretende ser a restauração da primitiva Igreja que existiu na região da Lusitânia e que em si mesma era autónoma e não ligada à Igreja de Roma. Um século depois e em 1980 a Igreja Lusitana juntamente com a Igreja Espanhola Reformada Episcopal integraram a Comunhão Anglicana na qualidade de dioceses extra provinciais sob a jurisdição metropolita do Sr. Arcebispo de Cantuária. Olhando para o futuro, a Igreja Lusitana e a Igreja Espanhola irão celebrar no ano de 2030, 150 anos da sua constituição e 100 anos da sua integração na Comunhão Anglicana. Com este horizonte celebrativo, a Igreja Lusitana está a desenvolver um Plano de Missão até 2030, que visa o desenvolvimento de novas comunidades e a promoção de um maior sentido de discipulado entre os seus membros. Para este fim contamos com o vosso apoio e as vossas orações.
Olhamos o futuro com a confiança e a esperança que advém da fé em Cristo ressuscitado. No nosso sofrimento e nas exigências do nosso tempo que Deus nos ajude a continuar juntos aos pés da Cruz de Jesus Cristo.
Assim Deus nos ajude.
+ Jorge Pina Cabral
Outubro de 2026



