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sinodo

Alocução do Bispo Diocesano ao

101.º Sínodo da Igreja Lusitana

 

Prezados irmãos e irmãs em Cristo,

Saúdo o colendo Sínodo com uma das mais antigas expressões de fé na Trindade extraída da segunda carta de Paulo aos Coríntios: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco». Ámen. Esta saudação, escrita pelo ano 56 d.C., foi lida e anunciada no contexto da Festa da Santíssima Trindade recentemente celebrada. O nosso encontro Sinodal está, pois, temporalmente ancorado entre duas festas litúrgicas, significativas para a compreensão da Igreja que somos e da Missão que somos chamados a desenvolver. Por um lado, a já referida Festa da Santíssima Trindade, por outro a Festa de Ação de Graças pela Instituição da Sagrada Eucaristia, que abriu os trabalhos sinodais. As festas da Igreja não estão definidas para cumprirmos uma tradição ou se quisermos, cumprirmos um calendário litúrgico. Em cada tempo e em cada lugar, a sua celebração define a Igreja que somos, indica a Missão a cumprir e acalenta e inspira a comunidade de fiéis reunida eucaristicamente.  

Na Santíssima Trindade, celebramos o dom de um Deus, que é comunhão amorosa de três Pessoas divinas cuja mesma substância é o Amor (I S. João 4,8). Um Amor que circula no seio da Trindade e que não está encerrado em si mesmo, antes se nos oferece sempre, em cada tempo e em cada lugar. Para ser fiel a si própria à luz da Santíssima Trindade, a Igreja que somos e na ação do Espírito Santo, tem que exprimir sempre a verdade desta comunhão amorosa Trinitária que a sustenta na origem. A verdade de um Amor que não se fecha e se compraz em si mesmo, antes um Amor que cria, um Amor que se oferece sacrificialmente, um Amor que sustenta e anima, um Amor que nunca desiste e ousa novas formas de se exprimir e de dar, um Amor que cuida dos mais vulneráveis e que trata com respeito não só o que é humano mas também toda a Criação de Deus. Um Amor que não procura uniformizar, mas que promove a riqueza da diversidade existente na família humana tal como foi criada e querida por Deus.  

A Igreja deve ser pois, um ícone da Trindade, dado que a sua configuração é Trinitária e tal deve ser sempre expresso na sua liturgia e no seu louvor, no seu ensino e no seu testemunho e no seu serviço e anúncio. Uma Igreja missionária, entende-se como povo de Deus, corpo de Cristo e templo do Espírito Santo. Ou seja, uma Igreja fiel à Aliança a que foi convocada por Deus Pai, e que na diversidade de dons e carismas, vive unida a Cristo, cabeça da Igreja, e sempre se sustenta e anima na ação do Espírito Santo. É esta Igreja que, convocada por Deus, se congrega dominicalmente à volta da mesa da Eucaristia. O dom da Santa Comunhão que ontem festivamente celebramos, assenta primariamente, no convite que Jesus nos faz a todos e a cada um de nós. É Cristo ressuscitado que convoca, que congrega, que se nos oferece e que nos alimenta através do seu próprio corpo e sangue. O seu convite amoroso expresso na fórmula litúrgica «vinde, provai e vede quão bom é o Senhor», confere-nos a confiança e a coragem de nos abeirarmos do altar do Senhor e de o acolher nas nossas vidas. Somos acolhidos e acolhemos. Acolhemos Deus e acolhemos os nossos companheiros à mesma mesa. E deste modo, juntos à volta da mesa eucarística, percebemo-nos povo de Deus e irmãos e irmãs em Cristo. Comendo do mesmo pão e bebendo do mesmo cálice, celebramos a nossa unidade em Cristo e a Igreja que somos, na qual já não há diferença entre «judeu e grego; escravo ou homem livre; homem e mulher porque todos somos um em Cristo» (Gálatas 3,28). Deste modo, a celebração eucarística dominical revela o ser da Igreja e sustenta a Igreja na sua Missão. Cada eucaristia celebrada é, pois, uma festa que se nos oferece e que nos renova no amor, na alegria e na paz que provem de Deus. Uma festa para a qual devemos sempre convidar outros e outras.  

É, pois, em nome da Trindade Santa e do sustento recebido na Sagrada Eucaristia que a Igreja está reunida em Sínodo. É Deus quem nos convoca e é Deus quem nos sustenta. Reunimo-nos celebrando já uma longa e profícua história eclesial que nos permite alcançar o marco do 101.º Sínodo, marco que poucas Igrejas possuem em Portugal e que desde já nos responsabiliza. Aqui em Sínodo, e celebrando o caminhar histórico já percorrido, cabe-nos na ação da Trindade Santa, olhar o futuro de Missão que se nos oferece. Como referido na introdução ao Plano de Missão que iremos discutir, a Igreja tem perante si um horizonte celebrativo, dado que no ano de 2030 irá completar 150 anos da sua constituição e 50 anos de integração na Comunhão Anglicana. Trata-se, pois, de um tempo Kairós, um tempo de oportunidade que uma vez mais e no seu Amor a Trindade Santa nos oferece celebrar. Neste tempo que queremos de renovação seremos guiados pela afirmação divina: «Eis que faço novas todas as coisas» (Apocalipse 21,5). O lema Sinodal será o lema do nosso Plano de Missão até 2030. «Eis que faço novas todas as coisas», exprime a promessa divina de restauração total, renovação interior e recomeço, garantindo que Deus transforma dores e falhas em vida nova. Esta promessa presente no livro do Apocalipse é a de que um dia tudo se transformará. O que foi destruído será reconstruído e o que estiver doente será curado. Por sua vez a resignação transformar-se-á em esperança e o luto numa dança alegre: «Já não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor» (Apocalipse 21,4). A Ressurreição de Jesus Cristo que é a vitória do amor sobre a morte provocada pelo pecado, corporiza e assume em si mesma, toda esta realidade nova de que S. João nos fala no livro da Revelação. A Ressurreição inscreve definitivamente a novidade de Deus no nosso caminhar histórico. Em Cristo Ressuscitado tudo é recriado e ganha um alento de eternidade.

Eis, pois, o sentido da Esperança cristã, que nos anima hoje a olhar o futuro. Perante os desafios atuais que se colocam ao mundo em que vivemos, somos chamados através da nossa vida e testemunho eclesial a saber dar «as razões da nossa Esperança» (1 Pedro 3,15). Cristo chama-nos a falar a um mundo que precisa desesperadamente das boas novas da ressurreição. Num mundo marcado pela polarização, Deus chama-nos a ser agentes de reconciliação. Num tempo marcado por cenários de violência e de guerra, Deus convoca-nos a ser arautos e construtores da sua paz. Perante discursos de ódio e atentatórios da dignidade humana, importa com outros homens e mulheres de boa vontade, erguer a voz assumindo a dimensão profética do nosso testemunho.  

Neste tempo Kairós que a Igreja vive, a Esperança cristã requer sempre realismo de visão e reconhecimento daquilo que importa mudar concretamente ao nível da Igreja que somos. Deus não só nos convida à Esperança, mas também a participar. E juntos somos agora chamados a participar na construção de uma Visão e na sua concretização nos anos vindouros. Para que o Plano de Missão que iremos analisar em Sínodo possa ganhar consistência futura, considero que enquanto Igreja e comunidades, temos que reformular modos de estar, de pensar e de agir. Para tal é necessário a Igreja saber dar tempo ao encontro relacional que não pode ser precipitado. Ao encontro fraterno que se sustenta na oração e na Sagrada Escritura. Ao encontro que promove o diálogo e acolhe visões e contributos diversos. Ao encontro que se sustenta na partilha da vida e faz comunidade. E para estes encontros temos que saber convidar outros para além do círculo habitual.  

É necessário então, um processo e uma metodologia que devem ser aplicados aos diferentes níveis eclesiais (paróquia, Arciprestado e Diocese) e que promovam não só uma visão coletiva para o futuro como também um estar em Igreja renovado e capaz de evangelizar outros.  Devemos assumir o que de bom e de belo e na ação do Espírito Santo, a Igreja tem vindo a realizar e que, pela graça de Deus, tem sido muito. Mas também nos devemos questionar que novos compromissos espirituais, de tempo e financeiros, Deus está a solicitar a cada um e a cada uma e à Igreja no seu todo. Requerse um novo espírito de mordomia que se exprima na dádiva reconhecida e alegre perante Deus. A dádiva do que somos, do tempo que temos, dos dons que Deus nos concedeu, do nosso trabalho, do dinheiro que temos e principalmente a dádiva de tudo aquilo que ainda nos prende e nos impede de crescer em amor e santidade perante Deus e os homens e mulheres.

A verdade e a exigência da fé em Jesus Cristo, é a de que o nosso testemunho é tanto mais credível e transformador, quanto se sustentar em opções de vida coerentes. A Esperança capaz de mobilizar outros, acontece com exemplos de vida e de discipulado em Jesus Cristo. Vidas em Cristo promovem mais vidas em Cristo. Vidas que assumem o sacrifício da fé ajudam outros a abeirarem-se também da cruz de Cristo. Vidas que vivam com alegria e gratidão a fé em Jesus Cristo contagiam também outras vidas com o seu testemunho vibrante. Vidas que assumam o compromisso da presença na eucaristia dominical, desafiam e motivam outros a estarem também presentes na Igreja. E tudo isto é bem verdade dado que muito do que somos na vivência da fé e no compromisso na Igreja, provem do testemunho e exemplo de vida na fé que outros foram capazes de nos transmitir.  

A alegria da Festa da Esperança ontem celebrada, na diversidade de culturas e línguas que caracterizam a Igreja que somos, aponta-nos desde já um dos caminhos a serem percorridos. No modo como a Igreja se abrir e souber acolher a novidade dos migrantes que procuram o nosso pais e sociedade, a Igreja estará a definir o seu futuro e também o seu crescimento. Nesse sentido, damos graças a Deus, pelo muito que de bom e de belo tem já acontecido e que no poder do Espírito Santo tem vindo a transformar vidas e comunidades. Considero também muito significativo e para a compreensão da Igreja que somos, o processo conducente à criação de uma Província Anglicana Ibérica. O que está em causa é a compreensão e a vivência de uma eclesiologia mais fiel à unidade que Cristo desejou para os seus discípulos e capaz de promover uma maior comunhão fraterna e uma missão mais coerente e eficaz. A presença entre nós dos irmãos da Igreja Espanhola Reformada Episcopal é, pois, uma bênção que muito nos anima e encoraja no caminho a prosseguir.  

Cada um de nós, hoje aqui presente no Sínodo da Igreja, possui não só a responsabilidade da participação e da representação, como também, a responsabilidade de levar aos demais irmãos e irmãs em Cristo, a novidade das coisas novas que o Espírito Santo nos está desde já a propor. Se estamos presentes no Sínodo foi porque Deus nos chamou e esse chamamento desde já nos responsabiliza a sermos «pedras vivas» na Igreja. Termino evocando a memória do nosso irmão Leonel Ferreira, pai do leitor Paulo Marcos e membro da paróquia de S. Tomé e que Deus chamou recentemente para si. A sua vida foi um testemunho de amor a Deus tendo colocado todos os seus dons ao serviço da Igreja e educado toda a sua família na fé. É um bom exemplo do sentido de mordomia e de compromisso com a Igreja que todos devemos assumir. Pela sua vida damos graças a Deus!

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.

 

+ Jorge Pina Cabral

Centro Diocesano, Vila Nova de Gaia, 6 de junho de 2026

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