
Mensagem de Páscoa de 2026
«Se um grão de trigo lançado à terra não morrer, não dá fruto. Mas se morrer dá muito fruto» (João 12, 24).
Cristo ressuscitou! Aleluia !
Na Páscoa, a Igreja proclama a verdade que está no cerne da nossa fé: Cristo venceu a morte e, por meio dele, uma nova vida começou. A ressurreição de Jesus não é apenas um acontecimento que se recorda; é uma realidade viva que molda a nossa esperança, o nosso testemunho e a nossa vocação comum como cristãos. Dá-nos confiança, uma confiança profunda e inabalável no Evangelho de Jesus Cristo.
Esta esperança não é abstrata. Proclamamo-la num mundo marcado por profundo sofrimento e conflito. Pensamos naqueles que vivem no meio da guerra e da violência – no Irão, no Líbano e em todo o Médio Oriente, na Ucrânia, no Sudão e em tantos outros locais de conflito e nas Igrejas da Terra Santa, que dão testemunho fiel sob imensa pressão. Recordamos todos os que estão deslocados, oprimidos ou esquecidos, e renovamos a nossa vocação como cristãos em estar ao lado dos marginalizados e de servir aqueles que mais necessitam.
Num mundo assim, o mistério da Páscoa reveste-se de uma profundidade especial. Escrevendo da prisão, Dietrich Bonhoeffer refletiu que «só um Deus que sofre pode ajudar». Estas palavras fazem-nos parar para pensar. Elas lembram-nos que, em Jesus Cristo, Deus não se mantém distante da dor humana, mas entra nela, suporta-a e transforma-a. A cruz permanece firme enquanto o mundo muda. Impérios surgem e caem, culturas mudam e sociedades transformam-se, mas o amor de Deus revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece constante.
A cruz e o túmulo vazio, juntos, dizem-nos que o sofrimento e a morte não têm a última palavra. O sofrimento e a dor são penúltimos; a realidade última é o abraço amoroso de Deus na glória. A Páscoa proclama que, mesmo nos lugares mais sombrios, Deus está a trabalhar para trazer vida.
No Palácio de Lambeth, os sinais da primavera oferecem um eco silencioso deste mistério. Os jardins começam a florescer novamente, o que parecia adormecido está agora repleto de cor e promessa. No pátio, a magnólia oferece um espetáculo de tirar o fôlego, com as suas flores radiantes e efémeras, uma lembrança da beleza congelada no tempo. Até a magnólia que plantei recentemente começou a florescer, um pequeno, mas esperançoso sinal de vida a criar raízes. No entanto, a verdade mais profunda para a qual tudo isto aponta encontra-se nas palavras de Jesus: «Se um grão de trigo lançado à terra não morrer, não dá fruto. Mas se morrer dá muito fruto». O padrão da morte e da nova vida está no cerne do Evangelho.
A Páscoa convida cada um de nós a entregar-se de novo a este mistério. O que é que, nas nossas vidas, nas nossas igrejas e nas nossas relações, devemos entregar para que Deus possa trazer renovação? A ressurreição assegura-nos que nenhum ato de entrega fiel é jamais em vão. No Oriente cristão, o ícone da ressurreição expressa esta esperança com profunda beleza. Cristo está de pé sobre os portões quebrados do Hades, estendendo a mão para levantar Adão e Eva e, com eles, toda a família humana. É uma visão não só de vitória, mas de alegria: a humanidade elevada à vida do Deus trino.
Esta é uma esperança que partilhamos em todas as nossas igrejas. Para aqueles que estão empenhados na obra da unidade cristã, a ressurreição é o nosso alicerce comum e a nossa vocação. As nossas divisões, embora reais, não definem a realidade final da Igreja. O Cristo ressuscitado continua a atrair-nos para si e uns para os outros, e n’Ele encontramos tanto a coragem como a confiança para caminharmos juntos.
Muitas vezes, esta obra desenrola-se discretamente na oração, na amizade, na hospitalidade, no testemunho partilhado. No entanto, estes pequenos e fiéis gestos são sementes de uma colheita mais abundante, sinais da unidade mais profunda que já partilhamos em Cristo.
A Páscoa chama-nos a viver a partir desta esperança: a confiar na vitória de Cristo, a estar ao lado daqueles que sofrem e a dar testemunho com renovada confiança no Evangelho. Num mundo ferido, somos chamados a ser pessoas da ressurreição, pessoas que vivem não no medo, mas na esperança; não no desespero, mas na promessa de uma nova vida.
Ao celebrarmos este tempo sagrado, que a alegria da Páscoa renove a nossa fé, fortaleça a nossa comunhão e aprofunde o compromisso de uns para com os outros em Cristo. E que caminhemos juntos, com confiança e esperança, rumo àquela realização definitiva, quando todas as coisas forem renovadas e toda a criação for reunida no abraço amoroso de Deus.
Cristo Ressuscitou!
Na Verdade Ressuscitou! Aleluia!
A Reverendíssima e Muito Honorável Dame Sarah Mullally - Arcebispa de Canterbury
Link: The Archbishop of Canterbury’s Ecumenical Easter Letter
