
NATAL FRÁGIL E VULNERÁVEL
O tempo de Natal que não se confina a uma mera ceia familiar, mas que se estende até à Epifania (manifestação) de Jesus aos magos e ao mundo, é um tempo que nos prepara e nos capacita a entrar frágeis e vulneráveis num novo ano que se avizinha.
A vinda de Deus ao mundo em Jesus de Nazaré, o Verbo feito carne, começou com a incrível vulnerabilidade de um nascimento realizado em condições precárias e perigosas. Após o seu nascimento, Jesus teve que ser cuidado e protegido pelos seus mais próximos. A sua família teve que fugir para o Egito e correr os riscos pelos quais passam hoje milhões de migrantes que buscam um porto seguro para viver. A história e vida do menino Jesus reflete a realidade do nosso mundo, no seu medo e na sua fragilidade. Deus fez-se vulnerável, porque não poderia ter-se tornado humano, carne, sem que tal acontecesse. «Fez-se verdadeiro homem» no acolher da fragilidade, da imprevisibilidade e da finitude que marcam também hoje o nosso próprio caminhar de vida. No seu caminhar e ministério terreno, Jesus demonstra que a resposta ao medo da nossa vulnerabilidade não é a negação nem a busca de falsas seguranças e forças, antes, o saber confiar na promessa de um Deus que nos ama dado que também hoje continua a caminhar connosco. Jesus não buscou um caminho diferente dos restantes peregrinos, mas soube avançar assumindo o sofrimento da incompreensão, da rejeição e da violência que lhe provocou a morte na cruz. Tudo colocou nas mãos de Deus Pai numa entrega filial que também nos envolveu e resgatou. Uma vulnerabilidade assumida em amor e com paixão que abriu um caminho novo e uma nova esperança de vida que a todos nos é outorgada pela Sua ressurreição.
A lição de mais este Natal de Jesus que celebramos e no atual contexto em que vivemos, é a de que abraçar a nossa própria fragilidade e vulnerabilidade significa não procurar ser mais fortes e capazes do que aquilo que somos, ou procurar fingir que tudo está bem quando não está e que para tudo na vida encontramos uma solução. Significa antes e uma vez mais colocarmo-nos em humildade e acolhimento perante Deus, reconhecendo a fragilidade do menino que há em cada um de nós e que também necessita de ser embalado e confortado pelo amor divino. Fazendo-o torna-se mais fácil assumir a nossa responsabilidade em saber dar e acolher, de tratar e ser tratado e de aceitar e oferecer compaixão ao outro. Cada Natal que celebramos permite-nos incarnar cada vez mais na nossa própria (e por vezes desconhecida) realidade e naquela que nos envolve. Um novo nascimento acontece em cada um abrindo ao mundo novas possibilidades e realizações. Esta é a magia e o mistério do Natal que celebramos e que nos torna mais comprometidos na transformação daquilo que em nós tem que morrer e de tudo aquilo que à nossa volta pode e deve ser transformado na busca de mais paz e reconciliação.
Este modo de viver a fé e a relação com Deus e os outros também nos permite olhar o céu e as estrelas, mesmo e apesar, das sombrias nuvens que se perfilam no nosso horizonte coletivo. Assim o fizeram os pastores naquela noite santa, acolhendo a mensagem do anjo que lhes incutiu confiança e lhes anunciou uma boa nova: «Não tenham medo! Venho aqui trazer-vos uma boa nova, que será motivo de grande alegria para vocês e para todo o povo. Pois nasceu hoje, na cidade de David, o vosso Salvador, que é Cristo, o Senhor!». Olhar o céu e as estrelas em oração e gratidão a Deus pelo dom do Seu próprio Filho. Fazê-lo não só individualmente, mas também no seio da Igreja reunida na comunhão com os irmãos e irmãs na fé. O dom do Deus menino é tão grande e belo que verdadeiramente só pode ser plenamente vivido e acolhido na comunhão da família da fé. É algo a ser celebrado com todos e por todos na harmonia de uma mesma família humana pela qual Cristo encarnou, morreu e ressuscitou. Cabe-nos partilhar esta celebração e alegria com todos os homens e mulheres de boa vontade que também connosco caminham e que são nossos companheiros de jornada. Fazê-lo em particular neste Natal com os que se sentem mais excluídos e tristes. Num mundo marcado em tantos sítios pela guerra, lembramo-nos em particular neste Natal, da Terra Santa, sujeita a tanta violência, destruição e arbitrariedade. Oremos pelo fim deste conflito, que não sendo verdadeiramente religioso, opõe Judeus a Árabes e que é tão só alimentado pelo interesse e desejo de poder de minorias políticas em ambos os lados.
Que Cristo, que ao encarnar, trouxe à unidade as coisas terrenas e celestiais, nos encha a todos da sua alegria e da sua paz.
Santo Natal e Feliz Ano de 2025.
+ Jorge
