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Que Deus nos conceda a virtude de acolher o tesouro que desce da eternidade

 
Mal saímos das Festas de Natal (que, se possível, prolongaríamos por mais tempo), e logo chega a Festa da Epifania com o belo texto de Is. 60 que nos desafia dizendo: “Levanta-te, resplandece porque vem a tua luz e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti. Eis que as trevas cobriram a terra e a escuridão os povos, mas sobre ti o Senhor vira surgindo.” Paralelo a Isaías vem o texto dos Reis Magos cuja história já sabemos de cor, só nos resta aprender o seu significado. E’ uma história que pensamos ser apenas para crianças. Mas na verdade, e’ para pessoas adultas, crentes, que adentram cheios de fé e esperança, este território não mapeado, desconhecido, misterioso, chamado Ano Novo.

No centro da história, aparece uma estrela, um cometa, que atrai os magos para fora de sua zona de conforto e voluntariamente se deixam guiar pelo cintilante astro. O que importa se uma super nova saiu cortando o céu a olho nu no séc. 4.a.C.? Ou o que importa para nossa leitura bíblica se a visibilidade do cometa Halley causou pânico nas antigas civilizações no ano 11 a.C? O que importa o terror que pode ter causado o tríplice alinhamento dos planetas Júpiter e Saturno na constelação de Peixes no séc. 7 a.C? Nada.

A arqueologia do texto pouco importa, pois a intensão do evangelho e’ que nós possamos fazer parte da história em vez de disseca-la, a intensão e’ que nos apropriemos da história em vez de apenas ouvi-la como uma reza, encarna-la, em vez de memoriza-la. Para isso, precisamos colocar os pés nas mesmas sandálias dos magos, palmilhar a mesma estrada, sentir o mesmo calor do deserto, dormir nas tendas ou ao céu aberto, olhando para o firmamento e ver as estrelas cadentes riscarem o céu a olho nu, como eles fizeram. Vivenciar esse momento, como eles viveram, sentir a história no mesmo pulsar que eles sentiram.

A intensão do Evangelho e’ que essa historia venha fazer morada dentro dos nossos corações, e depois que ela entrar, vejamos a nossa reação, o que a historia causa no nosso interior? Encantamento? Fé? Risos, gargalhadas? Lagrimas? Devoção? Vida Nova? Esperança?

Do Oriente nasce o sol, de la vem a Lei e os Profetas, que deram origem ao estado de Israel, de la veio Cristo, João Batista, Paulo e a Igreja Primitiva, o ensino dos apóstolos, os milhares de cristãos, testemunhas e mártires que pavimentaram o Caminho que hoje e’ amplo e aplainado diante de nós.

Quem são os Magos do Oriente? São aqueles de vem de fora, os viajantes, os estranhos, os que vem de uma religiosidade ou espiritualidade diferente da de Israel, sou eu e você, somos nós, os gentios. Os sábios do Oriente, são pessoas nobres, capazes de gastar a vida toda, buscando um sinal, uma luz, lendo o folclore, a poesia, as profecias, os provérbios. Povo que não se acomoda, mas deixa-se desalojar, inquietar, desafiar. Povo que anda pela fé, que e poe o pé na estrada uma vez que o sinal começa a cintilar. Povo sedento de Deus e confiante em Deus. E’ o povo de Deus, e’ o peregrino, e’ a Igreja Caminhante, ekklesia, chamada para fora. E’ a Igreja de Deus para o mundo de Deus.

Neste caminho não estamos sós: nosso mundo e’ cheio de ‘magos do Oriente’, que ainda não se encontraram, que continuam buscando um sinal, procurando uma luz, uma esperança e muitas vezes voltam-se para caminhos errados, opções erradas, por falta de alguém que lhes de direção. Por exemplo, os Magos, por mais crentes e inteligentes que eram, não têm resposta para tudo e fazem a pesquisa no lugar errado.

Para a pergunta mais importante: “Onde esta o menino rei que acaba de nascer?” Vão buscar resposta no palácio do Rei Herodes. Ora, as crianças brincavam em ruas patrulhadas pela cavalaria de Herodes, e ele não queria alterar as ordens das coisas, pois Jerusalém, era o centro do mundo religioso e económico da Palestina e isso foi o suficiente para causar um tremor em toda Jerusalém. Jerusalém, a cidade próspera, invadida pelos peregrinos, judeus da diáspora em suas caravanas de camelos trazendo abundancia de todo o Crescente Fértil, ficou abaladíssima.

Não há interesse da parte de Herodes e de Roma, que o status quo seja alterado. Os sábios ingenuamente perguntam a Herodes pelo seu rival! Ele com todo seu poder, dentro das fortificações do seu palácio, sente-se ameaçado por um menino vestido em fraldas, dormindo no frio. Mas a historia e’ escrita por Deus, e Deus tem um outro roteiro, Deus tem um outro mapa e graças a Deus por isso! A mão de Deus escreve a história a partir de uma outra localidade, que não Jerusalém. De acordo com o roteiro divino, o governo não vem do centro do poder, mas sim das margens! Uma reviravolta histórica! Se não e’ revolucionário não e’ evangelho:
A 60 milhas de Jerusalém, esta uma pequena aldeia, belamente descrita por Miqueias no cap. 5 : “E tu Belém, Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que governara em Israel, e cujas as saídas são desde a antiguidade, desde os tempos eternos”. Uma verdadeira Epifania! Aqui revela-se a Sabedoria que os Magos gastaram toda sua vida procurando. A Sabedoria do Deus Menino, mil vezes maior do que a esperteza de uma raposa, de um governo totalitário. Os magos não a acharam em Jerusalém nem no palácio, mas na simplicidade de uma pequena aldeia.

Pode algo de extraordinário vir de Belém, de Lisboa, de Vila Nova de Gaia, da Africa do Sul? E aqui esta também nossa história, aqui esta nossa redenção, como disse Paulo aos Coríntios: “Vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, escolheu as fracas, para confundir as fortes, escolheu as vis e as desprezíveis, as que não são, para aniquilar as que são, para que nenhuma carne se glorie perante ele.” (1Cor 1.26-30)

E achando o menino, lhe oferecem o que tinham de melhor: ‘abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe dádivas. E sendo (Epifania) por divina revelação avisados que não voltassem junto a Herodes, partiram para sua terra por outro caminho.” Deus tem um outro Caminho, outro mapa que nos conduz a Belém, e da manjedoura a nossa casa. Essa rota, de volta para casa e para navegar o Ano Novo e’ a conversão, e’ a novidade da vida nova em Cristo, por isso e’ a rota do contentamento, da esperança, de começar tudo de novo, de escrever uma nova historia, uma nova identidade, um novo roteiro. Que Deus nos conceda a virtude de acolher o tesouro que desce da eternidade; via o Caminho de Belém e de Belém adentrando o Jordão, o caminho da conversão e batismo.

Feliz Epifania. Que Assim Seja.

Reverenda Abilene Fischer

Dia da Epifania 2022

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