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Mensagem de Natal 2020
Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

                             Fernando Pessoa

 

A contemplação do menino Jesus deitado na manjedoura, apresenta-nos um quadro de profunda simplicidade e vulnerabilidade. Na sua fragilidade de criança, dependente dos cuidados e da proteção de José e de Maria, o Deus menino assume também os mais débeis e fracos e entre eles os idosos da nossa sociedade. A encarnação de Cristo toma e assume plenamente a condição humana nas diversas fases da vida, conferindo a cada pessoa, uma dignidade e um valor próprio, ao longo de toda a sua jornada terrena. Em particular, neste Natal de 2020, o olhar do menino, como que solicita que o nosso olhar se direcione para o rosto dos idosos que nos rodeiam e por eles nos deixemos interrogar e interpelar. O drama dos surtos de Covid nos lares de idosos, a elevada taxa de mortalidade provocada pela pandemia neste grupo etário, o afastamento imposto e necessário entre cada idoso e os seus familiares, acentuam, nesta quadra natalícia, a dor e o sofrimento interior de quem mais não pede, do que um gesto de ternura e de proteção.

Uma das interpelações que este Natal nos faz é precisamente a de não só repensarmos o tempo e atenção dada aos nossos pais, avós e idosos, como também a de desenvolvermos um novo entendimento e relação com a velhice; a nossa e a dos outros. A espiritualidade dos mais velhos, aliada a uma profunda sabedoria de vida, constituem em si mesmo, uma bênção que nos é oferecida e que está sempre disponível. É a espiritualidade e sabedoria do velho Simeão e da profetisa Ana, esta com oitenta e quatro anos de vida, que conforme nos descreve o Evangelho de Lucas, foram capazes de reconhecer Deus, naquele menino que lhes foi apresentado e de darem graças e testemunharem, falando d’Ele, a todos os que esperavam que Deus salvasse Jerusalém (Lucas. 2,38). O saber cuidar dos mais velhos requer a atitude de saber acolher o muito que estes têm para nos oferecer. Tal deve ser assumido na família, na Igreja e na sociedade. A encarnação de Jesus abriu o caminho para uma vida nova que a Sua ressurreição para nós alcançou. Uma vida nova que leva «os jovens a terem visões e os velhos a sonharem» (Atos 2, 17) e na qual apesar «do corpo se desgastar o nosso interior se renova de dia para dia» (II Cor. 4,16). No Deus menino percebemos que seremos sempre para Deus, filhos e filhas, meninos e meninas. E que independentemente do avançar do tempo e da idade cronológica seremos eternamente crianças.

Pela força das circunstâncias pandémicas que nos são impostas, este Natal vai ser vivido num contexto familiar de maior intimidade e recolhimento. É o contexto próprio e necessário a uma vivência mais espiritual da mensagem e beleza que o Natal sempre nos oferece. É a oportunidade para darmos tempo à leitura dos textos bíblicos, à entoação dos hinos e à oração de ação de graças. É também uma nova oportunidade de escuta e de acolhimento dos poucos que connosco estarão. Como que estamos agora reduzidos ou se quisermos centrados no essencial que não esquece os que estão afastados, nos lares e nos hospitais, mas antes a todos nos aproxima em espírito e em verdade.

Tal como aos pastores que naquela noite santa guardavam os rebanhos no campo, também hoje o anjo vem a nós para nos dizer: «Não tenham medo! Venho aqui trazer-vos uma boa nova, que será motivo de grande alegria para vocês e para todo o povo. Pois nasceu hoje, na cidade de David, o vosso Salvador, que é Cristo, o Senhor». (Lucas 2, 9-11). É esta mensagem de conforto e de esperança, que no meio da noite que atravessamos, somos também chamados a anunciar. Façamo-lo com a convicção própria de quem assume a sua fé no menino Deus e busca ser perante Ele eternamente criança. Façamo-lo e em primeiro lugar aos que pelas circunstâncias da vida se encontram sós e vulneráveis.

A todos desejo um Santo e Feliz Natal!

+ Jorge Pina Cabral
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