
Carta Pastoral
A leitura orante e Diária da Bíblia
Bispo Jorge Pina Cabral - Dezembro de 2025
Prezados irmãos e irmãs em Cristo,
Saúdo-vos com muita alegria e afeto no decorrer do tempo do Advento que estamos a viver!
Na sua reunião de 21 e 22 de novembro passado, a Comissão Permanente da Igreja Lusitana, exortou o povo da Igreja a um maior compromisso de oração e de leitura bíblica ao longo do ano litúrgico que agora se inicia. Escrevo-vos, esta Carta Pastoral, no seguimento desta exortação e no contexto do Domingo da Bíblia, que no calendário da Igreja Lusitana, se celebra no segundo Domingo do Advento. O texto da Carta é baseado num escrito anterior meu que considero pertinente e atual.
A Oração própria para este domingo, a ser elevada a Deus na Eucaristia dominical, expressa bem a relação que importa desenvolver entre cada crente, e a Igreja no seu todo, com as Sagradas Escrituras:
Bendito Senhor,
Tu deste-nos as Escrituras
para nos indicarem o caminho da salvação;
ensina-nos a ouvir, ler, estudar
e assimilar interiormente a tua Santa Palavra
com amor, paciência e oração,
de tal modo que, fortalecidos pela sua inspiração,
mantenhamos firme a esperança da vida eterna.
Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.
É uma oração muito bela que provem de um coração agradecido a Deus pelo dom das Escrituras. Um coração e uma vida experimentados numa relação existencial com o texto bíblico, que compreende as dimensões da escuta, da leitura e do estudo, dimensões estas que se complementam entre si e não se anulam umas às outras e que só serão verdadeiramente alcançadas, se se sustentarem no amor, na paciência e na oração. É muito interessante percebermos aqui, o modo como a Palavra de Deus envolve o leitor no seu pensamento, na sua sensibilidade e na sua espiritualidade. É uma Santa Palavra que apela a uma relação com a pessoa no seu todo, não descurando nenhum dos muitos aspetos que nos definem enquanto tal. Se a Palavra é Santa é porque nos pode santificar e qualquer caminho de santificação requer e assume a pessoa no seu todo, na sua liberdade e responsabilidade. Trata-se de assumir que todos e cada um de nós possui o que é indispensável, a uma relação viva e fecunda com a Palavra, que vem a nós e nos indica o caminho da salvação.
Aprender a ouvir a Palavra de Deus
Aprender a ouvir a Palavra de Deus é, pois, o primeiro requisito que nos é apontado. Mais do que um texto lido, a Bíblia tem sido ao longo da história um texto escutado e para muitos e muitas ainda hoje continua a ser assim. S. Paulo na sua carta aos Romanos afirma que «a fé vem daquilo que se ouve e o que se ouve é o anúncio da palavra de Cristo» (Rom. 10,17). No seu caminhar de vida com a Palavra encarnada – Jesus Cristo – os próprios discípulos desenvolveram a arte de ouvir o Mestre e de por Ele serem interpelados: «quem tem ouvidos, oiça» é o refrão muitas vezes dito por Jesus e escutado pelos seus discípulos. É um ouvir que se abre à proposta e ao desafio que o anúncio da Boa Nova sempre contém. Ouvir na perspetiva da fé não é somente escutar, mas também acolher e responder a Cristo, Palavra de Deus. Para tal e nos tempos de hoje, importa fazer silêncio interior, dado que muitas vezes os nossos próprios barulhos e agitações nos impedem de acolher esta Palavra, que, com fidelidade e Amor, persiste em vir a nós, precisamente para «nos seduzir», conforme refere o profeta Jeremias (20,7).
Lembro-me aqui de um presbítero amigo, que desenvolveu a prática e a arte de fechar sempre os olhos quando a Palavra de Deus é proclamada na Igreja. Como que o fechar de um dos sentidos, a visão neste caso, potencia um outro, a audição, para um melhor desempenho da sua função espiritual. Fecham-se os olhos, apura-se a escuta e abre-se o coração. É a bela e necessária harmonia e colaboração entre os diversos sentidos que nos habitam, no acolhimento da transcendência que se nos oferece. A arte de saber escutar para melhor acolher está presente nos métodos tradicionais e antigos de leitura e oração da Bíblia.
Nesta dinâmica relacional e amorosa entre o Deus-falante e o Seu povo, ganha particular destaque a proclamação e a escuta da Palavra no contexto da celebração Eucarística. Na ação do Espírito Santo, a Igreja aprofunda o sentido da sua fé, não só no modo como proclama a Palavra, mas também como a procura acolher e ouvir comunitariamente. É uma ação que implica todos os intervenientes, na consciência e no cuidado de saber proclamar e saber ouvir a Palavra de Deus. Tão importante como proclamar e anunciar bem é saber ouvir e acolher bem. E ouvir bem é também questionarmo-nos o que é que esta Palavra que me é dirigida, me diz a mim, e a nós, no concreto da minha e da nossa existência. Acolher a Palavra é abrir-lhe a vida, a nossa vida e deixar que ela se faça presente nos nossos dramas e nas nossas esperanças. É acolher um dom para a vida que se nos oferece por Amor. Aqui deve ser sublinhado o responso litúrgico feito no final de cada leitura bíblica: «Palavra do Senhor. ….. Graças a Deus». Muitas vezes nas nossas assembleias dominicais o Graças a Deus comunitário soa algo envergonhado e quase inaudível. Ou seja, expressa talvez uma impreparação interior no ouvir e acolher a Palavra proclamada e no reconhecimento de que essa mesma Palavra é uma bênção e um dom pelo qual devemos estar gratos a Deus.
Permitam-me que sublinhe a importância do bom desempenho das funções e ministérios litúrgicos exercidos. As diferentes leituras da Sagrada Escritura devem ser previamente preparadas e bem lidas na assembleia dominical por aqueles que têm esta responsabilidade. Uma boa leitura predispõe a um bom acolhimento da Palavra. Por sua vez, os fiéis devem ser motivados a ler anteriormente em sua casa, os textos bíblicos indicados para a celebração litúrgica de Domingo. A homilia deve ser cuidadosamente preparada e colocada em oração perante Deus. Em cada comunidade tem que existir, pois, um grau de exigência e de cumprimento, para que a Mesa da Palavra seja verdadeiramente um banquete proveitoso para todos e que nos prepara desde logo para a Mesa da Eucaristia.
A leitura e o estudo da Sagrada Escritura
Mas o assimilar interior da Santa Palavra requer, para além do ouvir, a sua leitura e o seu estudo. Da minha experiência pastoral, tenho verificado que os crentes que falam com mais entusiasmo e alegria sobre a Sagrada Escritura, são aqueles e aquelas que dedicam mais tempo à sua leitura e o fazem diária e regularmente. Na sua maioria são pessoas simples, poderíamos até dizer sem grandes estudos académicos, mas que souberam desenvolver em si mesmos a arte e a disciplina de uma leitura regular dos textos bíblicos. Esta leitura, muitas vezes feita no recolhimento discreto do quarto ou do lar, como que abre um canal próprio de relação e de oração com Deus (Mateus 6,6). É uma leitura e um abrir das páginas da Bíblia, que expressa um desejo de amar a Deus e de ser por Ele amado. Deus que é Amor propõe-se à nossa liberdade pessoal. No exercício desta liberdade somos chamados (e nunca forçados) a tomar o livro nas nossas mãos, a abrir as suas páginas e penetrar numa leitura que não é mais do que um diálogo com Deus. Quando assim acontece, o texto torna-se mais que texto escrito, dado que abre a uma relação viva e existencial, que é já em si mesma uma oração. Esta verdade está bem expressa no bonito hino cuja letra nos diz: «Enquanto, ó Salvador, Teu livro ler, Meus olhos vem abrir, pois quero ver Da mera letra além a Ti, Senhor, E meditar no Teu excelso amor.» (S. H. 260)
Uma irmã nossa que já partiu para Deus contava-me com o coração reconhecido o modo como Deus lhe falou, quando recebeu, pela primeira vez, a notícia da sua doença oncológica que a veio a vitimar. Encontrava-se precisamente a ler nesse dia e nessa hora em que recebeu a notícia médica, a passagem bíblica de Isaías 41,10 que diz: «Não tenhas medo, porque estou contigo; não te aflijas, porque sou o teu Deus. Eu torno-te forte, ajudo-te, protejo-te com a minha mão direita vitoriosa». Este versículo tornou-se para ela mais do que um texto, tornou-se num falar de Deus para o concreto da sua vivência e necessidade humana. Um falar que a acompanhou e lhe transmitiu a necessária confiança e ânimo para as vicissitudes que teve que enfrentar e para o modo de aceitar uma doença terminal à luz da fé em Deus.
Outra irmã nossa referiu-me também o modo como os Salmos, no contexto da pandemia do COVID, se tornaram numa fonte de bênção para o seu caminhar diário: «Foram verdadeiras vitaminas espirituais e morais». Nos Salmos, Deus fala-nos e faz-nos falar, ou seja, o próprio Deus ensina-nos a falar com Deus. Assim foi também com Jesus Cristo, quando no sofrimento da cruz, fez seu o falar e o sentir dos Salmos, e desse modo nos revelou como também nos podemos dirigir a Deus em alturas de aflição e mesmo no final da nossa vida.
Importa, pois, e novamente, apresentar esta verdade que a Reforma Protestante sublinhou e que foi tão sacrificialmente defendida pelos nossos pais na fé; de que a mensagem da Bíblia é dirigida a todas as pessoas, independentemente da sua condição e está acessível a todos, através de uma leitura responsável e regular. É uma carta de amor que Deus nos dirige e que na ação do Espírito Santo suscita a nossa resposta e adesão. Deveremos, e dirijo-me aqui ao clero, não só pregar sustentados no texto bíblico, como também promover e acompanhar entre o povo da Igreja a leitura, o conhecimento e a memória da Bíblia. Num tempo de informação permanente e constantemente renovada, é pedagógica e culturalmente importante «valorizar a memória bíblica». Lembramo-nos todos da sabedoria dos nossos professores de Escola Dominical que exercitavam a nossa memória, ensinando-nos a recitar versículos da Bíblia, que pela sua beleza e profundidade ainda hoje trazemos inscritos no nosso coração e pensamento.
O estudo e conhecimento dos textos Sagrados é também necessário para evitar o literalismo bíblico e o fanatismo religioso. Hoje, e graças ao dedicado trabalho das Sociedades Bíblicas, qualquer exemplar da Bíblia contém em si numerosas fontes de ajuda e de interpretação dos textos. Estas fontes devem ser complementadas com o ensino promovido pela Igreja aos diversos níveis, desde os grupos de estudo bíblico ao estudo teológico. Devem também os fiéis, quando sentirem essa necessidade, solicitar à Igreja a explicação e a pedagogia necessárias ao entendimento dos 66 livros que compõem esta biblioteca que é a Bíblia, escrita ao longo de aproximadamente 1600 anos, em diversas línguas e contextos culturais, por diversos autores e comunidades e assumindo diferentes géneros literários.
Orar e recuperar o testemunho bíblico
O nosso testemunho de vida enquanto cristãos será então tanto mais credível quanto se sustentar (não só!), mas também numa sólida relação com a Escritura. Urge recuperar a alegria de falar sobre a Bíblia e os seus ensinamentos. Urge não ter vergonha de levar a Bíblia para o próprio culto dominical perante familiares, vizinhos, amigos e conhecidos. Urge ler a Bíblia em família e transmiti-la de forma bela e pedagógica às crianças e jovens. Importa tirar a Bíblia da prateleira para a fazer nossa, minha e de forma a que ela chegue a muitos. Karl Barth, renomado teólogo suíço, referia por alturas dos anos sessenta do século passado, que «é preciso segurar numa mão a Bíblia e na outra o jornal do dia», sublinhando a necessidade de contextualizar a Palavra de Deus na realidade sofrida do mundo em que vivemos. Volvidas já várias décadas após esta interpelação e num contexto cultural e social de acentuado desconhecimento e leitura da Sagrada Escritura, como que diríamos que para além do jornal importa voltar a ter a Bíblia na mão.
Temos aqui, sem dúvida, uma boa proposta para o ano pastoral em curso. Daí a importância do Guião das Leituras Bíblicas Diárias (com pensamentos espirituais) que se encontra em distribuição nas Igrejas. É uma proposta que deve ser levada a sério e com responsabilidade. Como o próprio Guião refere: «Estas leituras são oferecidas à Igreja com a convicção forte que uma leitura ordenada da palavra de Deus é tão importante como a sua pregação» (I Timóteo 4,13). O propósito das leituras bíblicas diárias é que as mesmas sejam integradas nos Ofícios diários de Oração que o livro de liturgia da Igreja Lusitana nos oferece. Deste modo, a leitura da Bíblia é feita em comunhão com a Oração que a Igreja diariamente eleva ao Pai por Cristo e na ação do Espírito Santo. Percebemos também aqui a útil e necessária complementaridade entre o Livro de Liturgia e a Bíblia.
Numa cultura marcada pelo excesso de ruído, pela azáfama e permanente distração e entretenimento, o tempo de Advento que estamos a celebrar remete-nos para a interioridade, para a pausa e para o silêncio. Importa e neste novo recomeço renovar a necessária sensibilidade espiritual interior capaz de acolher no Natal aquele que é a Palavra, o menino de Belém.
Termino com o texto da primeira carta de João sobre a Palavra da Vida:
«Escrevemos acerca daquele que é a Palavra da Vida, que já existia no princípio de tudo. Nós, que o ouvimos e vimos com os nossos próprios olhos, também o contemplámos e lhe tocámos com as nossas mãos. A vida deu-se a conhecer e nós vimo-la. Falamos dela, e anunciamo-la a vocês. É a vida eterna, que estava com o Pai e que nos apareceu» (1,1-2).
A todos desejo a continuação de uma Santa Caminhada neste Tempo de Advento e um novo ano litúrgico e eclesial muito abençoado e renovado na leitura e escuta da Sagrada Escritura e na oração com Deus. Ámen.
+Jorge
