
Homilia 4.ª feira de Cinzas 2025
«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Ámen.
O bem que deixámos de fazer
Dominicalmente no rito eucarístico e seguindo a fórmula de confissão dos pecados dizemos: «confessamos ter pecado contra Ti, em pensamentos, palavras e atos, tanto no mal que fizemos como no bem que deixámos de fazer, por negligência, fraqueza e intenção». Habituados a uma relação casuística com Deus, centramos mais o nosso exame de consciência, no número de atos negativos e exteriores praticados e que conseguimos identificar com mais precisão, do que propriamente no «bem que deixámos de fazer, por negligência, fraqueza e intenção». O «bem que deixámos de fazer» não nos remete para actos, atitudes e opções tomadas exteriormente, antes remete-nos para o nosso comportamento interior caracterizado por negligência, por fraqueza e por intenção. O que está em causa então não é tão só o que realizamos, mas antes as disposições interiores existentes que nos impediram de realizar o bem ou seja o amor ao próximo e a Deus. A identificação destas disposições interiores que conduzem ao pecado, pressupõe o exigente e sempre difícil exame de consciência, exercício de caracter espiritual e introspetivo que nos confronta com a nossa própria debilidade, marcada muitas vezes por uma inconstância de comportamentos, por uma falsa superioridade moral e pelo medo de nos abrirmos a um caminho de amor que por natureza sabemos que é sempre exigente. Quando praticado em espírito de oração o exame de consciência é tomado pela graça de Deus que nos leva ao arrependimento.
Todos nós percebemos que o que a liturgia nos pede no momento da confissão dos pecados não é um rápido exame de consciência, capaz de no momento, colocar perante Deus, todo o pecado praticado e todo o bem deixado de fazer, mas antes uma confissão pública a Deus realizada na presença da Igreja e que exprime tudo aquilo que precisamente em oração humilde, fomos capazes de colocar previamente perante Deus e na ação do Espírito Santo.
Deste modo, o nosso encontro com Deus que dominicalmente celebramos na Eucaristia que a todos nos congrega, requer preparação cuidada, quer na leitura prévia dos textos bíblicos que a mesa da Palavra nos vai providenciar, quer na oração prévia de autoexame e de abertura com Deus, que desde logo nos prepara para uma confissão dos pecados em espírito de «verdadeiro arrependimento». O acolhimento da Palavra de Deus bem como o acolhimento da presença viva e real de Jesus Cristo na Eucaristia, requer espaço e disponibilidade interior e espiritual para que Deus nos tome e nos preencha com a Sua graça vivificante. A quaresma que hoje iniciamos é, pois, o tempo próprio para o desenvolvimento desta abertura espiritual interior que requer conforme a exortação inicial: «exame de consciência e arrependimento, oração, jejum e renúncia e leitura e meditação da santa Palavra de Deus».
Todos nós, temos também a consciência, de que esta quaresma se realiza num contexto social e político mundial de grande exigência e marcado por um clima de confronto que contradiz a vontade de Deus. Retomando a fórmula da confissão dos pecados atrás referida, o «bem que deixámos fazer» refere-se também e no atual contexto, ao calar das nossas vozes e ao receio de tomarmos posições públicas perante sucessivos atentados à vida e à dignidade humana. Deixamos de fazer o bem quando preferimos a comodidade do silêncio ao confronto da profecia. Ficamos muitas vezes comodamente numa atitude de espectadores sempre críticos em relação a uma ordem mundial em crescente erosão. Como alguém já alertou: «Será que teremos de nos resignar à banalização do abominável?» O profeta Isaías na leitura hoje acolhida é a este propósito bem claro: «Grita em voz alta, sem te cansares; que a tua voz seja forte como o som da trombeta. Denuncia ao meu povo as suas maldades, aos descendentes de Jacob os seus pecados». A quaresma que hoje iniciamos é também o caminho até Jerusalém a ser percorrido por cada um e pela Igreja que somos. A Ressurreição foi antecedida da paixão e do erguer da Cruz por Jesus. Quando Jesus entrou em Jerusalém a multidão que o aclamava como Senhor e libertador foi censurada pelos fariseus. Jesus respondeu-lhes «Olhem que se estes se calarem, até as pedras hão-de gritar». A indiferença e o silêncio que muitas vezes assumimos em relação aos que nos rodeiam e ao contexto político, social e cultural em que vivemos leva-nos a deixar de fazer o bem, o que por si é já pecado grave individual e coletivo.
A este propósito relembro a história de Martin Niemöller (1892-1984), um pastor luterano alemão que foi internado pelos nazis em campos de concentração. Niemöller, que começou por ter posturas de anti-semitismo e tentou 'dialogar' com Hitler, acabou um dos mais vigorosos críticos da indiferença do povo alemão perante a política de extermínio. Escreveu contra esta indiferença e silêncio um texto conhecido e que hoje particularmente e no início desta quaresma nos interpela: (passo a citar) "Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse" (fim de citação). A indiferença que prefere voltar as costas à ação é uma cegueira voluntária que nos leva a pecar por negligência, fraqueza e intenção. O salmo que recitámos diz-nos: «Tu amas a verdadeira sinceridade e dás-me a conhecer a sabedoria no íntimo da alma». E Jesus no Evangelho proclamado é claro quando afirma: «Felizes os sinceros de coração porque hão-de ver a Deus! Felizes os que procuram a paz entre os homens, porque Deus lhes chamará seus filhos. Felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus, porque é deles o Reino dos céus!».
A Cruz que queremos carregar nesta quaresma como preparação para a Páscoa requer abraçar também as realidades sofridas do mundo e saber denunciá-las promovendo novas formas de relação condizentes com a Boa Nova de Jesus. A indiferença é uma forma de pecado. A interioridade própria do tempo quaresmal, longe de nos alhear do mundo, permite-nos penetrar mais profundamente na realidade que nos envolve. Deus ajuda-nos a acolher os sinais dos tempos que vivemos e a uma consequente opção e compromisso pela verdade, pela justiça social e pelo cuidado e salvaguarda da Sua Criação.
A quaresma é por natureza um caminhar conjunto em Igreja e por isso esta noite estamos aqui juntos no reafirmar da disponibilidade para juntos caminharmos. Que ao terminar esta quaresma, daqui a 40 dias sejamos capazes de dar graças pelo bem que fomos capazes de fazer em conjunto.
A todos desejo uma Santa Quaresma!
+ Jorge
