
Amar o inimigo em tempos de polarização
«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen»
O Evangelho do VII Domingo Comum apresenta-nos o discurso de Jesus na planície junto dos seus discípulos e da multidão que carregava ansiedades e doenças. No passado domingo, Jesus falou-nos sobre o caminho para a verdadeira felicidade (as bem-aventuranças) e hoje, Jesus, provoca-nos positivamente dizendo-nos que «devemos amar os inimigos e fazer bem aos que nos odeiam».
O amor ao próximo era mandamento normal em Israel. A novidade que Jesus hoje introduz e o que o torna original a sua pregação é que agora o amor se estende «ao inimigo». Jesus fala-nos assim de um amor sem limites que não exclui ninguém e que ele próprio vai assumir e praticar até à hora da sua morte.
Jesus diz : «tenham amor aos inimigos e façam bem a quem vos tem ódio; Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal. Ao que te bater num lado da cara, deixa-o bater também no outro. Ao que te tirar o casaco, não o impeças de levar a camisa».
No mundo de hoje, marcado pela violência, pela divisão, pela polaridade, e no qual a força das armas se impõe como critério para a paz, a mensagem de Jesus parece-nos ingénua e desfasada da realidade presente. Com efeito, vivemos infelizmente, num tempo de guerras diversas, com inimigos bem declarados e com incentivos diversos a políticas de aumento de armamento como forma de alcançar uma suposta paz entre nações. O mundo está entrincheirado e do outro lado, na outra barricada, está o inimigo que urge eliminar. Somos nós contra eles, os amigos contra os inimigos.
Vivemos também um tempo marcado por discursos políticos geradores de ódio e de divisão. Segue-se a máxima de «dividir para reinar». Mesmo no discurso político de alguns, o outro, não é visto como um adversário, mas sim como um inimigo. Assistimos recentemente no nosso parlamento, na casa nobre da democracia representativa, ao insulto como arma política e ao total desrespeito pela pessoa do outro. Quando a dignidade do outro (mesmo que seja meu adversário político) é posta em causa, porque é invisual, porque é mulher, porque é de etnia cigana, porque é migrante e porque tem um modo diferente de pensar, então aí, ultrapassamos limites e entramos na lógica de que vale tudo para alcançar o poder e destruir o outro. O outro, aquele que é diferente e pensa diferente de mim, já não é o meu adversário, muito menos o meu próximo, mas antes um inimigo a abater.
Todo este contexto social, político, e mundial como que penetra também no nosso coração e afeta profundamente, o modo como olhamos o mundo e os outros. Consciente ou inconscientemente, carregamos desejos e pensamentos de ódio e de rejeição de pessoas concretas, cuja imagem temos bem viva no nosso pensamento. Como já foi referido e bem o “nós” contra “eles” acaba por envenenar o “nós todos” e provoca insegurança generalizada.
Podemos então nos questionar, se a mensagem e a pessoa de Jesus, estão fora do tempo, desfasadas da realidade e propondo algo que a realidade e o comportamento humano teimam em negar e contrariar.
O que o Evangelho de hoje nos propõe não é utópico, isto é, sem lugar e como tal irrealizável. Jesus aponta-nos um caminho novo e estreito no qual é possível vencer o mal com o bem, um caminho ao seu estilo de vida dado que Jesus desce ao nosso mundo para abraçar, absorver e absolver as nossas raivas e os nossos ódios. Jesus aponta-nos o caminho da reconciliação e não o da divisão, o do diálogo e não o do afastamento, o do respeito e não o do rebaixamento, o do sacrifício pelos outros e não o do egoísmo próprio. Jesus em suma, aponta-nos o caminho da Cruz, que requer o saber perdoar, mesmo aqueles que nos fazem mal, tal como fez Jesus quando exclamou na Cruz: «Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem». Neste caminhar de conversão, de profunda mudança interior e relacional a que somos chamados, não estamos sozinhos dado que Jesus também caminha connosco. Jesus pede-nos aquilo que Ele próprio sabe que conseguimos fazer com Ele e n’Ele na ação do Espírito Santo em nós.
Assim, Jesus pede-nos uma inversão no modo de orar, priorizando não aqueles de quem gostamos ou que nos fazem bem antes aqueles que rejeitamos. Que oremos em particular por aqueles que são os nossos «inimigos», senão físicos pelo menos mentais, aqueles que nos magoaram, aqueles que disseram mal de mim, aqueles que percebemos que são ditadores disfarçados de homens de bem, aqueles que desprezam as nossas convicções e a nossa fé, aqueles que fizeram mal aos que eu amo ou aos inocentes. Orar pelo «inimigo» é já uma forma de o começar a amar. Diz-nos Jesus, que se assim o fizermos, «receberemos grande recompensa e seremos filhos do Deus altíssimo, porque ele é bom até para as pessoas ingratas e más». É importante interiorizarmos que Deus não tem inimigos, não porque não haja alguém que lhe possa fazer frente, antes porque o Seu amor envolve, inclusive, os que mataram o seu filho na cruz do calvário. A ressurreição de Jesus após a sua morte na cruz do calvário é a expressão de um amor que não só restitui a vida como é capaz de perdoar e de regenerar os que antes lhe causaram a morte.
Mesmo a pessoa que carrega grandes pecados é sempre alvo da bondade de Deus. Deus tem uma solicitude especial pelos que pecam não para os julgar, mas antes para os libertar das amarras dos pecados que os prendem e impedem de viverem plenamente. O pecado da pessoa, não coloca em causa a sua condição de filho e filha de Deus, «criado à sua imagem e semelhança». Mesmo o maior pecador é sempre tocado pelo amor na sua forma pura e desprendida. Amar os inimigos pressupõe que não desistimos do outro apesar do seu pecado que me atingiu de uma forma particular. Amar os inimigos requer o nosso perdão ao outro. Saber perdoar é o primeiro passo para a reconciliação entre pessoas, entre famílias, entre comunidades, entre os povos. Perdoar não significa esquecer, mas antes o abrir de novas formas de relação e novos caminhos de realização. Quando assim acontece não é só a nossa relação com o outro ou com os outros que ganha nova expressão, mas também a nossa fé e a nossa relação com Deus. Por isso o Evangelho de hoje nos diz: «Não julguem ninguém, e Deus não vos julgará. Não condenem os outros, e Deus não vos condenará. Perdoem aos outros, e Deus vos perdoará. Deem aos outros, e Deus vos dará também. Deus há-de dar-vos uma boa medida, calcada, batida e bem cheia. Deus usará convosco, a mesma medida que usarem para os outros». Como nos refere a primeira carta de S. João, o nosso amor a Deus não estará completo se não comportar também o nosso amor ao outro (e inclusive ao nosso inimigo).
O Evangelho de hoje comporta também uma proposta ao autoexame. Muitos dos nossos inimigos ou daqueles que identificamos como inimigos, são consequência do meu pecado, das minhas atitudes e opções que os afastaram de mim. Abrirmo-nos ao perdão e ao amor do inimigo é reconhecer também a minha própria culpa e o meu contributo nesse afastamento. Somos nós próprios que muitas vezes consciente ou inconscientemente geramos inimigos.
Hoje e em especial no atual contexto em que vivemos importa abrir caminhos novos de relação, capazes de serem luz na escuridão que teima em persistir. Importa praticar a «diferença cristã». Aos que desdenham do caminho que Jesus hoje nos aponta, respondemos com o realismo e a verdade e a sabedoria da vida que claramente nos diz que a violência destrói e que só o amor edifica. Assim seja.
+ Jorge, diocesano
23 de fevereiro de 2025
