
Homilia na ordenação a Diácono de José Manuel Cerqueira
DO BATISMO AO MINISTÉRIO DO SERVIÇO
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso libertador». Ámen
«Estava a orar quando o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma visível como uma pomba. E uma voz do céu disse: «Tu és o meu Filho querido. Tenho em ti a maior satisfação».
No contexto da Festa do Batismo de Jesus que a Igreja irá celebrar amanhã e que serve de perfeito enquadramento para a festa da ordenação que hoje aqui nos congrega, somos colocados através do Evangelho próprio, perante esta imagem grandiosa, na qual o céu se abre, o Espírito Santo desce sobre Jesus em forma visível como uma pomba e se escuta a voz de Deus Pai dizendo: «Tu és o meu filho querido. Tenho em ti a maior satisfação». Esta imagem bíblica (queridos irmãos) é também a imagem do nosso próprio batismo. O Batismo de Jesus no rio Jordão foi o primeiro Batismo no Espírito Santo e tornou-se o modelo e a fonte de todo o Batismo cristão.
Em cada batismo Deus no seu amor, abre os seus braços e dá-nos um abraço que nos introduz na sua própria intimidade. No batismo somos como que mergulhados em Deus e Deus mergulhado em nós. Eu na Sua vida e Ele na minha vida. Na ação do Espírito Santo começamos então a balbuciar as nossas primeiras palavras de amor e de fé para com Deus; «Abba pai», pai querido, paizinho amado. E Deus na resposta aos nossos gemidos, à nossa procura, à nossa inquietação, responde-nos dizendo: Tu és o meu filho querido ou tu és a minha filha querida. Tu és amado, tu és amada. Se queremos, pois, ser “cristãos”, a nossa vida nova tem de começar onde começou a de Jesus: nesta consciência de sermos pessoalmente amados por Deus. Ter fé, queridos irmãos, é precisamente possuir esta certeza interior (por vezes difícil de explicar e de assumir), de que somos amados por Deus, tal como somos e tal como estamos.
É do assumir desta consciência existencial, desta certeza interior, de que somos amados, verdadeiramente amados e queridos por Deus, que nasce a nossa vocação ou se quisermos o modo como nos disponibilizamos para corresponder ao amor de Deus e O servirmos na Sua Igreja e no mundo de acordo com os dons que Deus nos confere. Toda e qualquer vocação é, pois, uma resposta e uma vontade de retribuir um pouco do muito que de Deus recebemos.
Graças aos dons da fé, da esperança e do amor, recebidos no batismo, este, possui uma dinâmica que atinge toda a vida e que não se confina a uma experiência religiosa momentânea vivida num passado distante. E é esta dinâmica batismal que nos chama a todos a seguir a Jesus, passo a passo, dia a dia, fazendo o que Jesus faz e como Jesus faz, dado que nós fomos n’Ele configurados na ação do Espírito Santo e elevados à condição de filhos e filhas adotivos.
Deste modo, o batismo é a primeira marca e sinal da nossa identidade cristã, que comporta o compromisso de moldarmos as nossas vidas na vida, no ministério, nos ensinamentos, na paixão e na morte de Jesus Cristo. Qualquer batizado é por natureza um discípulo de Jesus. O batismo é, pois, o fundamento de todo e qualquer ministério cristão e a Igreja sempre entendeu que todos os cristãos batizados são ministros da Igreja; uns chamados a exercer o seu ministério como leigos e outros a servir a Deus através do ministério ordenado. Pelo batismo todos os batizados, todos nós, participamos do sacerdócio de Cristo. Importa, assim, que em cada ordenação ao ministério ordenado se aprofunde a compreensão da relação entre o batismo e o ministério de todo o povo de Deus, bem como a relação complementar entre o ministério ordenado e o ministério leigo.
A liturgia da ordenação que iremos seguir, expressa bem esta complementaridade, sublinhando ao mesmo tempo o caracter especial do ministério de diácono quando refere: «cada cristão é chamado a seguir Jesus Cristo servindo Deus, o Pai, através do poder do Espírito Santo, sendo o ministério de diácono um ministério especial de serviço à Igreja, na tarefa de, com os seus membros, cuidar de todo o povo, particularmente dos fracos, dos doentes e dos que vivem em aflição». Para este ministério específico de serviço à Igreja e ao mundo, evoca-se a graça e o poder do Espírito Santo.
À semelhança de Cristo, que após o seu batismo nas águas do rio Jordão iniciou um ministério de profundo serviço aos mais necessitados, providenciando-lhes o cuidado, a cura, a reconciliação e o alimento da Palavra, o diácono (ou a diácona) é chamado enquanto batizado a participar no ministério de Cristo através de um ministério específico, que segue o exemplo do Senhor, que veio não para ser servido, mas para servir. Não se trata, pois, de um ministério unicamente litúrgico ou dedicado ao cumprimento de certas funções litúrgicas. A compreensão da natureza do ministério diaconal, requer que se compreenda também, que a estrutura básica da liturgia se sustenta em dois movimentos: primeiro as pessoas encontram-se para a adoração a Deus, para ouvir a palavra de Deus e para partilhar o pão da vida; depois e no final da liturgia, são enviadas a servir o mundo, aquilo que os irmãos ortodoxos denominam de «liturgia após liturgia». Todas as funções litúrgicas do diácono devem ser sempre vistas e realizadas no seu sentido último de serviço a Deus e aos homens e mulheres, de serviço à Igreja e de serviço ao mundo. São funções e dizeres litúrgicos cuja ressonância vai mais para além do próprio espaço e tempo celebrativo. Assim:
- a proclamação do Evangelho reservada na liturgia ao diácono ou seja o anúncio da Boa Nova que é nosso Senhor Jesus Cristo, expressa a missão que lhe é confiada de «fazer conhecer o amor redentor de Cristo, tanto pela palavra como pelo exemplo, a todos com quem vive, trabalha e caminha na fé». A Boa Nova que o diácono proclama no púlpito, como que o guia a ele e à Igreja reunida, a procurar repeti-la e praticá-la agora no contexto da vida e do mundo;
- cabendo ao diácono «ser interprete para a Igreja das necessidades, preocupações e esperanças do Mundo», cabe-lhe também colocar essas mesmas realidades perante Deus em oração no contexto da liturgia. A vida dos homens e mulheres do nosso tempo deve ser trazida e colocada em oração perante Deus. Uma oração encarnada na escuta e acolhimento dos gemidos e esperanças do mundo;
- também no providenciar o pão e no preparar a mesa, o diácono assegura que quando o pão é partido na eucaristia existe em quantidade suficiente para todos expressão da sua solicitude e cuidado e que todos sem exceção têm lugar e são bem vindos à mesa do Senhor. Nesta compreensão do ministério diaconal, o serviço à mesa, altar do Senhor é compreendido em relação com o serviço à mesa dos necessitados. Mas o serviço aos necessitados também é trazido ao serviço no altar do Senhor na compreensão de que a diaconia começa no altar e sempre retorna ao altar.;
- no envio final cabe ao diácono na liturgia enviar o povo do templo da Igreja, para servir a Deus, na sacramentalidade do mundo. Os diáconos devem lembrar a Igreja dos perigos e limitações de ficar apenas no santuário e suas zonas de conforto: «Ide em paz para amar e servir o Senhor» é um envio feito sempre em jeito de proposta e de desafio. Os diáconos são, pois, chamados a este ministério de envio, acolhimento e de retorno; uma expressão do trabalho de Deus para o mundo através da Igreja e seu acolhimento em nome de Jesus Cristo.
Hoje mais do que nunca, a credibilidade do trabalho e da missão da Igreja são avaliados pelo modo como expressam serviço e amor ao jeito de Jesus Cristo. Só uma Igreja que serve é que é respeitada e seguida. Mas o ministério diaconal não é nem pode ser um ministério isolado e só se compreende no contexto de uma comunidade também ela aberta ao acolhimento e ao serviço. O diácono ou a diácona serão tanto mais sinal de Cristo sofredor e servidor, quanto mais encontrarem alimento e incentivo na Igreja que servem e da qual fazem parte. O exercício de qualquer ministério na Igreja e em particular o ministério ordenado, só se compreende à luz da comunhão batismal que forma o próprio Corpo de Cristo.
Como referimos, qualquer vocação é uma resposta e uma disponibilidade a um chamamento de amor, feito por Deus, a pessoas concretas na circunstância da sua própria vida, como escutamos na leitura do Antigo Testamento e na resposta do jovem Samuel a Deus: «Fala, que o teu servo está a ouvir». Todos reconhecemos no percurso de fé batismal e de caminhar eclesial do nosso irmão José Manuel Cerqueira o cuidado na escuta e no discernimento da vontade de Deus para a sua vida. O seu já longo e profícuo ministério é hoje e em ação de graças trazido perante Deus. Muito na ação do Espírito Santo ele já soube anunciar, soube semear e soube recolher. Muito e bom fruto já foi produzido, através de um ministério pastoral que assumiu diversas expressões e configurações eclesiais e que se pautou sempre por uma busca interior e uma exigência própria de conformidade à vontade de Deus para a sua vida: «Fala Senhor que o teu servo está a ouvir». Toda esta riqueza e testemunho de fé é hoje reconhecida e colocada perante o Senhor da Igreja, na disponibilidade agora, de exercer um novo ministério para um novo caminhar a que Deus o chama. Para que este novo ministério continue a dar muito e bom fruto, fazemos nossas, prezado José Manuel as palavras de Paulo a Timóteo: «uma coisa te peço encarecidamente: prega a palavra; insiste a tempo e fora de tempo; avisa, repreende, exorta com muita paciência e dedicação ao ensino …. Sê vigilante em tudo, suporta as dificuldades, comporta-te como mensageiro do evangelho e cumpre a tua missão.»
Que assim seja, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.
+ Jorge
Vila Nova de Gaia, Paróquia de S. João Evangelista, 11 de janeiro 2025
