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28º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 10/10/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
28º Domingo Comum – Ano B
10out2021 

17 Ao sair para se pôr a caminho, correu um homem, e ajoelhou-se diante dele, e perguntou-lhe: Bom Mestre, que hei-de fazer para herdar a vida eterna? 18Respondeu Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só um, que é Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás, honra a teu pai e a tua mãe. 20Ele lhe replicou: Mestre, tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade. 21Jesus, contemplando-o, o amou e disse-lhe: Uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me. 22Mas o homem, contrariado com essas palavras, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.
23Jesus, olhando ao redor de si, disse a seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! 24Os discípulos ficaram surpreendidos com essas palavras. Mas Jesus tornou a dizer-lhes: Filhos, quão difícil é entrar no reino de Deus! 25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico, no reino de Deus. 26Eles ficaram sobremaneira admirados, dizendo entre si: Quem pode, então, ser salvo? 27Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens é isso impossível, mas a Deus, não; porque a Deus tudo é possível. 28 Pedro começou a dizer-lhe: Nós deixamos tudo e te havemos seguido. 29Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho 30que não receba já no presente o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo vindouro, a vida eterna.

1. O início deste episódio sumariza tudo o que foi o comportamento e o ensino de Jesus. Um homem (S. Marcos 10, 17), um jovem rico (S. Mateus 19, 20), um certo homem de posição (S. Lucas 18, 18), dirigiu-se a Jesus para saber como alcançar uma vida maior. Saúda-O com um epíteto de reconhecimento: Bom Mestre”, assim como um modo de “conquistar” as Suas graças. Jesus, em resposta, rechaça a retórica e começa por perguntar-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só um, que é Deus”. Contrariamente ao que seria natural, Jesus não aceita o epíteto e explica porquê. Considera que só Deus é bom, rejeita o qualificativo e assim expressa o reconhecimento da grandeza de Deus. Ou seja, mostra-nos o exemplo da Sua humildade – o Filho de Deus – apresentando-se como figura da pequenez humana.  
 
2. Aquele homem (jovem ou de posição) aparece-nos como alguém com preocupações religiosas relacionadas com o seu futuro – a vida eterna. Uma atitude louvável a condizer com uma fé consequente. Disso dá nota ao confessar-se cumpridor dos mandamentos da Lei de Moisés desde a sua mocidade. Todavia, Jesus, olhando-o e apiedando-se dele amorosamente diz-lhe algo que o surpreende: Uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me”.Terrível! Viver na fé, alcançar o Reino de Deus, é assim tão exigente (alguns dirão “cruel”)!? Despojar-se de tudo o que tanto custou a ganhar!? Eram seus e constituíam a ambiência duma vida centrada no cumprimento da Lei. Porquê rejeitá-los? Ter de alterar todo o seu modo de viver, encontrar outros procedimentos, novos sonhos e aspirações? E, foi-se embora, triste.
Talvez a questão maior não esteja aí. O que importa realmente é o que Jesus põe a nu: a vontade religiosa daquele homem pela eternidade da sua vida era bem menor do que o seu apego aos bens que possuía. A vida eterna assenta numa relação prioritária com Deus, manifestado em Jesus Cristo, que implica a libertação de nós mesmos e de tudo quanto são as nossas circunstâncias existenciais.   
Como tantas vezes nos equivocamos na nossa atitude religiosa! A condição humana sobrepõe-se ao que pensamos para a nossa relação com Deus. E Jesus alerta-nos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (S. Marcos 8, 34); “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (S. Mateus 13, 44).  

3. Jesus surpreendeu os discípulos ao afirmar Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!”. Na verdade, riqueza e prosperidade eram tidos, nos livros sapienciais, como sinais da bênção divina. O que aos olhos dos discípulos significava que os ricos eram, por natureza, os que mais próximos estavam do Reino de Deus. Mas, Jesus diz-lhes exatamente o contrário. Ora, isto levanta um problema sério aos cristãos, pois, toda a gente aspira a ser rico. Como crescem os gastos dos pobres e remediados em jogos que lhes podem trazer riqueza!… Claro que ao falar-se em riqueza logo nos vem à mente dinheiro, abundância de bens materiais e projeção social. É esta característica da vida humana a que Jesus quer chegar.    
Os ricos a que Jesus se refere não são gente má, como se pode perceber pela figura do homem que O procurou. Apenas, aqueles e aquelas que têm um ego de tal tamanho que faz que todo o seu viver se esgote em si próprios, na sua riqueza e nos trabalhos para mantê-la e aumentá-la. E se se apresentam com manifestações de caridade, fazem-no mais para usufruir do reconhecimento social, de que o seu ego tanto se alimenta. Portanto, têm grandes dificuldades de escuta, pois, no âmbito da sua riqueza não cabem nem o tempo nem a preocupação com os outros; centrados somente em si, mostram muito pouca tolerância para aceitação de quem é diferente e não têm paciência para se envolverem com assuntos ou pessoas que não tenham direta ligação com o seu estatuto ou a sua riqueza; evitam misturar-se com quem não pertença ao seu igual social e gostam de mostrar-se em manifestações de riqueza para mostrar o seu poder. Ou seja, vão perdendo a consciência dos outros.
Ora, tudo isto é completamente estranho ao Evangelho de Jesus Cristo. Este tem por exigência essencial vencer o egoísmo, libertar as pessoas da ilusão, que as escraviza, de ser “donos”. E propõe-nos que alcancemos um “tesouro” inextinguível que os ladrões não roubam nem a traça consome, feito de desprendimento dos nossos bens materiais e de atenção e ajuda aos que precisam numa relação amorosa que nos faz sentir perto de Deus e, assim, a verdadeira adoração (S. Lucas 12, 32-34).

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 

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