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23º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 5/9/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
23º Domingo Comum – Ano B
5set2021 

Provérbios 2, 1-8; Salmo 119, 129-136; Tiago 1, 17-27

S. Marcos 7, 31-37 
31Jesus saiu da região de Tiro, passou por Sídon, seguiu em direção ao lago da Galileia e dali para o território das Dez Cidades. 32Trouxeram-lhe então um surdo que também falava com dificuldade (gaguejava)[i] e pediram a Jesus que pusesse as mãos sobre ele para o curar. 33Jesus afastou-se da multidão, levou-o consigo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe na língua com saliva. 34Em seguida, levantou os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá, que quer dizer, «abre-te». 35Os ouvidos do homem abriram-se imediatamente, a língua desprendeu-se e ele começou a falar bem. 36Jesus disse a todos os que ali estavam que não espalhassem a notícia. Mas quanto mais ele dizia que não falassem mais eles contavam o que tinha acontecido. 37Estavam todos muito impressionados e diziam: «Tudo quanto ele tem feito é maravilhoso. Até põe os surdos a ouvir e os mudos a falar.»
 
1. O assombro apoderou-se dos que com Ele caminhavam. Fazer ouvir uma pessoa surda e pôr a falar normalmente um gago é verdadeiramente um prodígio. Conseguir que uma pessoa com enormes dificuldades de comunicação passasse a comunicar com os outros de forma normal e sem obstáculos é extraordinário. Foi o que Jesus fez, segundo o Evangelho de hoje. Porém, o relato contém detalhes que permitem ilações que muito nos podem ajudar na nossa caminhada cristã.
Sabemos bem que só a divindade pode fazer milagres. Ou, dito de outra forma, o milagre é da ordem do divino. Nesse sentido, o relato pretende dizer-nos que Jesus é da ordem do divino. No Concílio de Calcedónia (451 d.C.) foi declarado que Jesus Cristo é “perfeito em divindade”. Na verdade, Jesus veio para nos revelar Deus, o Seu poder e misericórdia. E por isso fez milagres (sinais, na perspetiva do evangelista João), não para mostrar que tem poder, mas, tão só, para curar enfermos, expulsar demónios e acolher a quem sofria penas e desgraças. Agora, repare-se como Jesus exerceu esse múnus de ‘revelador do Pai’ (quem me vê a mim, vê o Pai – S. João 14, 9). Podia operar o milagre tal como lhe foi solicitado – que impusesse as mãos para curar o doente. Mas, não, chamou-o e foi com ele para um lugar afastado da multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe na língua com saliva, levantou os olhos para o céu, suspirou e disse “abre-te” em aramaico. Ou seja, Jesus revela-nos Deus, mas o Deus humanizado. O “homem Deus” expressa-se em atos humanos, no acontecer da história e da circunstância de cada pessoa. Ou seja, a espiritualidade de Jesus está na sua humanidade. No modo como olha, cuida e se preocupa com todos aqueles que viviam e sofriam nas ‘margens’ da normalidade, os(as) que precisam de médico (S. Marcos 2,17).          
 
2. Como o Evangelho de hoje se revela atual! É que as tecnologias da informação, que povoam o nosso quotidiano e nos facilitam a vida em tantas situações, têm na sua génese o gérmen do ‘afastamento’ entre as pessoas. A ‘convivência’ virtual, que permite que sejamos cidadãos do mundo, também nos afasta na interação humana, de pessoa a pessoa. Sabemos muito das pessoas, mas não as conhecemos, os seus verdadeiros problemas não nos interessam, não os sentimos como nossos. E, assim, cada dia ficamos mais sós, mais egoístas. Isto é, corremos o risco de nos transformarmos em “surdos-mudos”, como aquele do Evangelho. Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (internet), Comunicar, significa pôr ou ter em comum, repartir, dividir, falar, conversar, o que pressupõe a interação, o olhar, o toque, a reação espontânea. E isto não se compadece com a informação, com que as tecnologias nos inundam e nos ocultam a verdade. Ou seja, estamos precisados do “milagre” que nos abra os ouvidos para ouvir e compreender os outros e nos desimpeça a língua para comunicar em interação presencial uns com os outros.
A este propósito, tenho lido sobre a preocupação pastoral das Igrejas neste tempo de quase pós-pandemia. Começa-se a perceber que o distanciamento funcional e necessário, a que fomos obrigados no princípio da pandemia, está a transformar-se em afastamento por vontade. Esta é uma verdadeira questão pastoral a ter em conta, pois, no contexto cristão, a pastoral faz-se a partir do encontro, da proximidade e da interação, afinal da comunicação entre as pessoas. Como alguém escreveu, “a abertura dos ouvidos, da boca, do coração e da vida é a condição humanizada e humanizadora que Deus quer para cada um de nós”[ii].    
 
3. Iniciou-se na passada quarta-feira, 1 de setembro, o Tempo da Criação. É um período de tempo que vai até 4 de outubro, dia em que a Igreja Católica Romana celebra a Festa de S. Francisco de Assis. Durante este tempo as Igrejas cristãs de todo o mundo unem-se em oração e em ações concretas pelo Oikos, a “casa comum”, de modo a chamar a atenção para a necessidade e urgência da sua proteção.   
Uma das maiores razões das agressões ecológicas é o consumismo galopante em que as sociedades se deixaram envolver associado à histeria do lucro sem medida e sem fim. Coisas bem materiais a impor-se à vida das pessoas através de potentes máquinas de publicidade que manipulam e criam a razão para a compra. Já reparastes que a publicidade apresenta-nos os produtos com um invólucro que lhes confere uma aura que está para além deles – como, por exemplo, felicidade, bem-estar, paz, virtude, autoestima – mas que não podem ser atingidas sem eles. Pode-se dizer até que “o material também é espiritual, e este último não existe sem aquele”[iii]. Ora, são os modelos de produção e de consumo que ao sobrecarregarem em excesso os ciclos vitais da natureza estão na base da potencial catástrofe ecológica em que nos encontramos. Portanto, tenhamos sempre bem presente que o cuidado com a natureza é (deve ser) tão importante como o cuidado com a vida humana. Nesse sentido, importa que nós, os comuns dos mortais, ganhemos cada vez mais a consciência de uma responsabilidade ecológica nas nossas decisões de natureza consumista.
 
+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana


[i] Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, 1985
[ii] P. Vitor Gonçalves in “À procura da Palavra”, Voz da Verdade de 05set2021
[iii] Boaventura de Sousa Santos in “Espiritualidade”, JL de 28/7 a 10/8/2021
 

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