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16º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 18/7/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
16º Domingo Comum – Ano B
18jul2021 

2 Samuel 11,1-15; Salmo 53; Efésios 2,11-22
 
S. Marcos 6,30-34
30Quando os apóstolos voltaram para junto de Jesus, contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado. 31Jesus então convidou-os: «Venham comigo a um lugar sossegado para descansarem um pouco.» É que havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo para comer. 32Entraram no barco e foram sozinhos para um lugar isolado. 33Mas muita gente, de vários lugares, viu-os partir e reconheceu-os. Foram a pé e chegaram lá primeiro do que eles.
34Quando Jesus saiu do barco, viu-se diante duma enorme multidão. Teve imensa pena daquela gente que era como um rebanho de ovelhas sem pastor e pôs-se a ensinar-lhes muitas coisas. 

1. «Um lugar sossegado para descansar um pouco». Jesus, ao ouvir dos apóstolos sobre «o que tinham feito e ensinado» apercebe-se do enorme labor a que foram chamados e convida-os para um tempo de descanso, de calma.
Segundo o primeiro escrito da Bíblia, o poema da criação, «Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou (…). Deus abençoou o sétimo dia e o santificou.» (Génesis 2, 2-3). Por isso, podemos dizer como Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano[i], “O repouso pertence à esfera do sagrado”. Ou seja, o repouso, o descanso, não é uma mera faceta do nosso tempo, antes, é um estado de espírito que transcende o trabalho, uma ambiência que o ultrapassa. Ao referir-se a este gesto de Jesus, o Evangelho pretende dizer-nos que o descanso é da ordem do teológico, isto é, da relação do humano com Deus. Significa, portanto, que o descanso é essencial à experiência religiosa. Até há quem lhe chame “calma contemplativa”, a quietude e o silêncio que harmonizam o homem consigo mesmo e com Deus.  
Contudo, na sociedade do nosso tempo onde impera uma espécie de coação produtiva – é preciso produzir sempre e muito – até o descanso se ‘subordina’ a essa finalidade. E, com o uso excessivo do telemóvel, em que quase por instinto, atendemos mais depressa e sempre os que estão ausentes em detrimento dos que estão presentes, até aquilo a que chamamos “socialização” – a relação com os outros – é influenciada pela pressão produtiva, com hora marcada e em sucessão temporizada. A roda-viva existencial em que gastamos o nosso tempo de vida. Ora, Jesus chama-nos hoje a refletir sobre o modo como vivemos os nossos descansos, em particular, aqueles momentos das nossas férias em que nos descontraímos e aquietamos para ‘olhar para dentro’ e ‘sentir’ o inefável, o Deus que nos ama. 

2. O excesso de trabalho produz nas pessoas uma tal pressão que pode levar à doença física e/ou psicológica. E, como tantas vezes se ouve “não tenho tempo para nada”! O excesso de trabalho, de afazeres, tem causas de diversa natureza. Entre outras, pode ser a necessidade imperiosa de trabalhar para obter rendimentos com vista à sobrevivência própria e familiar; pode, também, decorrer de um modo de estar de alguém que gosta de trabalhar ou trabalha compulsivamente, por muito tempo, e que só se sente feliz a trabalhar, o chamado “workaholic”; ou, ainda, o trabalho realizado por missão, com exposição permanente às necessidades daqueles a quem se quer servir. É para esta última causa que o autor do Evangelho de hoje nos quer chamar a atenção. Pelos vistos, também Jesus e os seus discípulos sucumbiam perante a pressão dos que os procuravam a toda a hora e momento, como está bem patente na expressão «havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo para comer». E procuraram um lugar para descansar, mas, ao chegar, foram surpreendidos por uma enorme multidãoque os aguardava. Em vez de descanso, mais trabalho.  
O orador Eclesiastes diz-nos: «Tudo tem o seu tempo e o seu modo» - Eclesiastes 8, 6. Isto é, tudo tem um tempo e um modo para ser feito, pelo que a nós é-nos deixada a possibilidade de procurarmos o tempo para isto ou aquilo que deve ser realizado na ocasião e na forma mais adequadas. Temos de ter tempo para cuidar de uma flor, para escutar (dar atenção a) uma pessoa, para olhar o que nos rodeia e apreciar o que é justo e belo e distinguir o que é maléfico e divide. Só desse modo conseguiremos vislumbrar o lado bom da vida e compará-lo com a infelicidade que existe na injustiça, na mentira, no ódio, na inveja e no ciúme. “Ter tempo para…” é, portanto, da ordem dos propósitos para a nossa vida. Para isso precisamos de olhar para além do aqui e agora, temos de procurar, entre as sombras das nossas dúvidas, a clarividência que nos vem da presença duma entidade superior no nosso coração para tomarmos a decisão apropriada ao tempo e ao modo de cada coisa. Numa palavra, precisamos de olhar e seguir Jesus, o Deus connosco.

3. A humanidade de Jesus encontra-se bem patente no Evangelho de hoje. Jesus sob a pressão das necessidades dos seus contemporâneos, Jesus sujeito ao descanso humano e, depois, a Sua comiseração perante uma multidão numerosa por quem se condoeu, porque «eram como ovelhas sem pastor». A Sua sensibilidade ultrapassou a necessidade de descansar e manifestou-se no desamparo daquela pobre gente.
Em cumprimento do que foi dito pelo Profeta Isaías, Jesus é o Servo de Deus, o escolhido para anunciar a salvação a todas as nações e isso foi feito não através do domínio e da imposição, mas, pelo contrário, pelo calar, pelo não enfrentar ninguém, e pelo aproveitar tudo o que é aproveitável. Isto é, “a bondade e a humanidade sem fissuras” (José Mª. Castillo). Por isso, conclui a profecia: «no nome d’Ele as nações terão esperança» (ver Isaías 42, 1-4 e comparar com S. Mateus 12, 15-21). Podemos compreender, assim, a expressão de Pedro «Senhor a quem iremos? Tens palavras de vida eterna» (S. João 6, 68-69). A humanidade de Jesus – a Sua vida e religião – que nos deve servir de guião para a nossa vida.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana


[i] Byung-Chul Han, “Do Desaparecimento dos Rituais”, Relógio D’Água 2020, pág. 43

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