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12º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 20/6/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO
12º Domingo Comum – Ano B
20jun2021

2 Samuel 5,1-12; Salmo 48; 2 Coríntios 5,18-6,2
 
S. Marcos 4,35-41

35Naquele mesmo dia, à tardinha, Jesus disse aos discípulos: «Vamos passar para a outra banda do lago.» 36Então deixaram o povo e levaram Jesus no barco em que estava sentado. Outros barcos os seguiram. 37Nisto, levantou-se um grande temporal com ondas tão altas que enchiam o barco de água. 38Jesus estava a dormir na parte de trás do barco com a cabeça numa almofada. Os discípulos acordaram-no: «Mestre, não vês que estamos perdidos?» 39Ele levantou-se e mandou ao vento e às ondas: «Parem! Acalmem-se!» E o vento parou e as ondas acalmaram-se. 40Jesus disse então aos discípulos: «Por que é que estão assustados? Ainda não têm fé?» 41Eles estavam de facto cheios de medo e diziam uns para os outros: «Mas quem é este que até o vento e mar lhe obedecem?»

1. Segundo alguns exegetas esta descrição da tempestade “não é um ‘relato histórico’, mas uma ‘mensagem’ para a vida”.[i] Porventura, o que se pretende ao relatá-la é lembrar os perigos a que estava sujeita a ‘barca de Pedro’, a Igreja, e, portanto, quanto era necessário estar ligada a Jesus para sobreviver. Vejamos.
Os discípulos passaram por uma situação de perigo limite («estamos perdidos») e dominados pelo medo, em pânico, acordam Jesus do sono (Mestre!). Era o último recurso para escapar da morte iminente. O medo na sua escala maior. Jesus serena a situação e questiona-os relacionando o medo com a falta de fé. Até se pode dizer que “para Jesus, o inimigo da fé não é o erro dogmático ou a desobediência religiosa, mas o medo, ou seja, quando falha a nossa segurança em Jesus.”[ii] Sabemos hoje que existem diversas instâncias do medo que vão desde a mínima, uma leve ansiedade, à máxima, o pavor ou o pânico. Tal ajuda-nos a entender que a nossa fé em Jesus passa também por diversas intensidades consoante a nossa idade, a nossa capacidade cognitiva, a nossa formação literária, as circunstâncias dos perigos em que nos vemos envolvidos, etc. Jesus a uns chamou «homens de pouca fé» (S. Mateus 6, 30), à mulher cananeia «Ó mulher, grande é a tua fé» (S. Mateus 15, 28) e, ainda, a outros recomendou «não negligencieis a fé» (S. Mateus 23, 23). Ou seja, precisamos de estar conscientes de que há uma dinâmica de crescendo ou decrescendo na nossa fé, a qual pode ou não esconjurar os nossos medos. Por isso, S. Paulo recomenda: «Examinai-vos a vós mesmos, e vede se estais na fé; provai-vos.» (II Coríntios 13, 5).
 
2. Que pormenor aquele de Jesus «a dormir na parte de trás do barco com a cabeça numa almofada»! Embora o relato esteja referido em Mateus e Lucas, só em Marcos é referida a almofada. A que quereria chegar o autor do Evangelho com aquele pormenor? Um dia, a um escriba que estava disposto a segui-Lo para onde quer que fosse, Jesus, pondo-o à prova, respondeu: «o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (S. Lucas 9, 58). Ora, considerando que não há aqui qualquer contradição, podemos aceitar que o autor do Evangelho pretendeu tão só expor a natureza humana de Jesus, portanto, o homem sujeito à fadiga e necessitado de descanso com algum conforto. É uma dimensão muito pouco referida nos evangelhos. E ficaríamos por aqui, senão atentássemos numa outra perspetiva.
Naquele tempo, os levitas – encarregados de certas funções no Templo – invocavam a Deus em cada manhã dizendo: «Desperta! Porque dormes, Senhor? Desperta! Não nos rejeites para sempre!» (Salmos 44, 23-24; 35, 23; e 59, 4). Esta oração fazia parte da liturgia usada no Segundo Templo e até era usual chamar-se aos levitas os “despertadores do Deus”[iii]. Ao lermos os Salmos referidos atrás percebemos que a preocupação religiosa era a de ter a Deus sempre presente na vida. Então, pode-se concluir que à luz das ideias e costumes religiosos do tempo, a referência ao acordar Jesus do sono, descansado com a cabeça numa almofada, procura expressar uma clara semelhança de Jesus com Deus. Se os levitas procuravam ter sempre Deus presente na vida, o Evangelho afirma o novo desejo, o da presença permanente de Jesus na nossa vida, porque «Eu e o Pai somos um» (S. João 10, 30).

3. E podemos ir mais longe. O salmista descreve uma tempestade com um vento «que elevou as ondas do mar; eles subiam ao céu e baixavam ao abismo, sua vida se agitava na desgraça; (…) E gritaram ao Senhor na sua aflição: ele os livrou das suas angústias. Transformou a tempestade em leve brisa e as ondas emudeceram. Ficaram alegres com a bonança, e ele os guiou ao porto desejado» (Salmo 107, 25-30). A descrição da tempestade, semelhante à do NT, expressa a herança espiritual dos judeus: só Deus pode aquietar aqueles elementos da natureza. Por isso, se compreende a pergunta dos discípulos «Quem é este que até os ventos e as águas lhe obedecem?». Esta é realmente a ‘mensagem’ do relato: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e como o Pai, tem o poder de condicionar os elementos da natureza. Assim procuravam apresentar aos judeus a pessoa de Jesus, na continuidade da sua fé, como o Messias que esperavam.
Mas, não será que esta pergunta pode também ter lugar hoje: Quem é este, que tendo poder para acalmar as águas e o vento, nada faz e permite toda a sorte de desvarios em que o mundo se está a tornar? Como responder? Nos diversos relatos dos evangelhos em que se afirma o poder de Jesus (de transformar a água em vinho, de curar doentes, de aquietar o mar e o vento, de expulsar demónios, de ressuscitar mortos), verifica-se que o mesmo era exercido sempre ao serviço e para a dignificação de alguém que sofria. Nunca usou tal poder para seu benefício, nem como modo de afirmação pessoal perante a sociedade e as autoridades religiosas do tempo, antes, «a si mesmo se humilhou» (Filipenses 2, 8). Isto é, todo esse poder foi usado como o servo de Deus, humilde e compreensivo, para proporcionar a paz – não a do mundo – através da Sua companhia e segurança que verdadeiramente aquieta os nossos medos e ansiedades.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana 


[i]José Mª Castillo, “La Religión de Jesús, Comentarios al Evangelio diario Ciclo B (2017-2018)”, Desclée De Brouwer, pág. 77 e 78
[ii] José Mª Castillo, idem
[iii] José Mª Castillo, idem

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