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11º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 13/6/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO
11º Domingo Comum – Ano B
13jun2021

II Samuel 1,17-27; Salmo 46; II Coríntios 5,6-17
 
S. Marcos 4,26-34

26Jesus disse ainda: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. 27Quer o semeador esteja acordado ou a dormir ela nasce e cresce, noite e dia, sem ele saber como isto se passa. 28É a própria terra que dá o fruto; aparece primeiro a planta, depois a espiga e mais tarde o grão. 29E quando a espiga amadurece começam a ceifar porque chegou o tempo da colheita.»
30Também dizia: «A que é semelhante o reino de Deus ou com que é que podemos compará-lo? 31É semelhante a um grão de mostarda que é a mais pequena de todas as sementes. 32Depois de semeada, cresce até se tornar uma das maiores plantas, com ramos tão grandes que os pássaros fazem ninho à sua sombra.»
33Era por meio de muitas parábolas como estas que Jesus ensinava o povo, de acordo com aquilo que as pessoas podiam entender. 34Só lhes falava por parábolas, mas em privado explicava tudo aos discípulos.
 
1. O propósito de Jesus é efetivamente a proclamação do Reino de Deus entre as gentes. Mas, não há dúvida, tal não foi – como continua a não ser – uma tarefa fácil. Para a compreensão do Reino de Deus não bastavam as Suas palavras e as Suas ações, estas tinham de ser complementadas com o entendimento dos ouvintes. Por isso procurava captar a atenção e informar as pessoas com comparações que mais facilmente lhes possibilitassem a compreensão do que queria dizer-lhes. É assim com o Evangelho de hoje: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Quer o semeador esteja acordado ou a dormir ela nasce e cresce, noite e dia, sem ele saber como isto se passa». O Reino de Deus é uma mundividência, uma visão da vida, centrada na confiança. O semeador faz o seu trabalho – lança a semente à terra – e confia que a natureza faça o seu. Não sabe nada dos processos de transformação (da semente em planta) e de maturação (da planta em espiga e grão), apenas espera confiante que chegue o fruto.
No exercício da fé, o confiar em Deus (acordado ou a dormir, noite e dia, sem saber como se passa) é o busílis, o cerne de um modo de estar feliz, de um estado de espírito pacificado e positivo. A palavra de Deus (a semente da parábola) tem uma força irresistível, capaz de transformar tudo a partir de dentro. Aí, a transformação e maturação que nos purifica interiormente e nos possibilita ser exteriormente sal e luz (S. Mateus 5, 13-16). Mas, tal exige humildade, abnegação, paciência e, em muitas ocasiões, capacidade para «esperar contra a esperança» (Romanos 4, 18). Eis um Reino que «não é deste mundo» (S. João 18, 36). Perante os reinos do nosso mundo que nos atabalhoam, confundem e fazem sofrer, Jesus recomenda-O como o ‘fruto’ do amor divino que cresce em nós, como uma força secreta, e nos impele à sua realização plena, isto é, a uma vida com sentido. 
 
2. Na segunda parábola Jesus mostra-nos que no centro do Seu projeto está o que é ‘pequeno’, o que é mais suscetível de ser transformado, que vive a humildade de espírito (S. Mateus 5, 3). Realmente Jesus sempre escolheu as crianças, os pequenos, os últimos, os marginalizados, os ‘zés-ninguéns’. E até disse que o Reino de Deus era deles (S. Mateus 19, 14). Como isto confunde a nossa obsessão pelo grande e pela grandeza, como diz S. Paulo, «os que se gloriam apenas pelas aparências, e não pelo que está nos corações» (II Coríntios 5, 12). O Reino de Deus como uma semente ínfima, que desponta num crescimento exponencial, que alcança uma estrutura em altura e força (a árvore) que é sustentação de quem queira descansar nos seus braços. Assim sendo, o Reino de Deus é como um jardim de frondosas árvores em permanente e suave crescendo, de folhas de húmido e aprazível frescor e de frutos diversos que providenciam paz e felicidade eternas, como na alegoria do esplendor do Egito (Ezequiel, 31, 3-9).  
E como e qual será o nosso lugar nesse jardim?
Será que haverá quem se sinta seguro no tronco e nos ramos da árvore que vamos edificando lenta e confiadamente com a nossa fé e as nossas ações a ponto de nos escolherem para descansar nos momentos decisivos das suas vidas? Ou, não será que, antes, queremos ser pássaros, livres e saltarilhos, anelando em cada momento de dificuldade pelo descanso da invocação do salmista: «Deus, nosso refúgio e nossa força, socorre-nos prontamente nos tempos de angústia.» (Salmo 46)?   
 
3. «Um rio alegra com os seus braços a cidade de Deus» (Salmo 46, 5). Depois das parábolas, a metáfora da água na cosmologia divina.
No Antigo Testamento a água da fonte era símbolo da vida que é dada por Deus. Há uma descrição da visão do Profeta Ezequiel dum rio maravilhoso, suas margens e quem nele trabalha e dele se alimenta, que manifesta a bênção trazida à terra pela habitação renovada de Deus no meio do seu povo (vale a pena ler em Ezequiel 47, 1-12). Esta imagem é retomada na referência ao rio das águas vivas em Apocalipse 22, 1-5.
No Novo Testamento, a água viva torna-se símbolo do Espírito, pois, do seio de quem crê em Jesus «jorrarão rios de água viva» (S. João 7, 37-39). Continua-se a tradição hebraica da água como elemento providencial de vida, porque criada por Deus, mas junta-se-lhe o complemento da fé, a adesão humana à condição divina.     
Neste Espírito – o vento que não se sabe donde vem nem para onde vai – a corrente da água povoa o nosso imaginário e enxameia os nossos sonhos como caminho de destinos vastos. Não lhe conhecemos as margens nem os afluentes, mas deixamo-nos vogar nos rápidos do seu andamento ou no tranquilo espreguiçar de águas mansas. Sabemos que lhe pertencemos e isso nos basta. Chegamos assim à ‘cidade de Deus’ – o ‘lugar’ de vida em justiça e santidade – onde a água da vida (Apocalipse 22, 17) jorra pura e fresca e nos podemos dessedentar. Por isso, o Apóstolo Paulo afirma: «Se alguém está em Cristo, é nova criatura» (II Coríntios 5, 17).
 
+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

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