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1º Domingo depois da Páscoa - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 11/4/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO
1º. Domingo depois Páscoa – Ano B
11abril2021

Actos 4,32-35; Salmo 118,19-29; 1 João 1,1-2,2

S. João 20,19-31
 
19Na tarde desse mesmo dia, o primeiro da semana, os discípulos encontravam-se juntos e tinham as portas fechadas com medo das autoridades judaicas. Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» 20Depois mostrou-lhes as mãos e o peito. Eles alegraram-se muito por verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes outra vez: «A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.» 22Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebam o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoarem os pecados, são perdoados; e àqueles a quem não os perdoarem, não lhes são perdoados.»
24Ora Tomé, um dos Doze, a quem chamavam Gémeo, não estava com eles quando Jesus lhes apareceu. 25Os outros discípulos contaram-lhe: «Vimos o Senhor!» Mas Tomé respondeu-lhes: «Se eu não vir a ferida dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo no lugar dos pregos e a minha mão na ferida do peito, não acredito.»
26Uma semana mais tarde, os discípulos estavam de novo reunidos em casa, e Tomé encontrava-se com eles. Apesar de as portas estarem fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e exclamou: «A paz esteja convosco!» 27A seguir disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos, estende a tua mão e mete-a no meu peito. Não sejas descrente! Acredita!» 28E Tomé respondeu: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Jesus disse-lhe: «Crês agora porque me viste? Felizes os que creram sem terem visto.»
30Jesus fez ainda diante dos seus discípulos muitos outros sinais que não vêm neste livro. 31Estes foram aqui contados para que creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida no seu nome.
 
 
1. Voltamos àquele primeiro dia da nova criação, o Domingo da Ressurreição. «Na tarde desse mesmo dia, o primeiro da semana, os discípulos encontravam-se juntos e tinham as portas fechadas com medo das autoridades judaicas». Maria Madalena já lhes tinha anunciado «Vi o Senhor!». Mas, eles não lhe deram ouvidos e fecharam-se em casa, cheios de medo. Na verdade, dos textos bíblicos concluímos que os discípulos não só não esperavam a Ressurreição do Senhor como até resistiram à ideia. Foi o próprio “facto” que se lhes impôs e os convenceu, como nos dá conta o Evangelho de hoje. Depois de verem as mãos com as marcas dos pregos e a ferida da lança no peito, «alegraram-se muito por verem o Senhor». Porém, percebe-se que a consciência do “facto” não estava segura nas suas mentes. A leitura do NT revela-nos, no entanto, que tempos depois «Os apóstolos falavam com grande autoridade acerca da Ressurreição do Senhor Jesus e eram grandemente abençoados» (Atos 4, 33). Que transformação esta! É a marca da Ressurreição nas suas convicções e nas suas vidas.Deixaram de olhar para Jesus em função das suas categorias de pensamento e passaram a olhar o mundo e todas as coisas a partir de Jesus. Isto é, deixaram-se tomar pelo Cristo ressurreto e viram n’Ele o fundamento do mundo inteiro.
2. Mas, compreendamos, a realidade do Cristo ressurreto não é (como não foi) fácil de se assimilar. É o que nos ‘diz’ o Evangelho a propósito de Tomé. Faltou, na versão de João, ao encontro dos discípulos com Jesus na parte de tarde daquele domingo. Ficou só no caminho da fé no ressuscitado. E, quando se caminha sozinho no itinerário da fé, o desafio do acreditar é maior e mais exigente. Por isso, a importância da comunidade. Voltou na semana seguinte e, confrontado com a materialidade do passado – «põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos, estende a tua mão e mete-a no meu peito» – descobre a ‘nova realidade’ de Jesus e, com humildade, balbucia uma das declarações mais precisas e profundas do NT acerca de Jesus: “Senhor meu e Deus meu!”.
Como Tomé, temos dúvidas. Mas, como Tomé, temos de aceitar percorrer um caminho, na busca, com lágrimas, desânimos, confusões, para, no fim, vivermos a alegria do reconhecimento. Assim como Maria Madalena ouviu de Jesus a palavra “Maria”, também cada um(a) de nós é chamado(a) pelo nome para uma íntima familiaridade com Ele. Só nessa intimidade, a proclamação da Ressurreição penetra no fundo do coração e é o sinal da conversão ao mistério do Senhor (Carlo Maria Martini). Isto é, com Jesus vivo no nosso coração, vivemos a Ressurreição em cada momento que, sentindo sofrimento, dor, depressão, angústia, tristeza, acordamos para uma luz que nos descobre esperança, paz, alegria e convicção profunda do amor de Deus. Aí, a proclamação do Ressuscitado abranda o sofrimento das nossas interrogações e dá-nos a certeza da vitória em Jesus Cristo.  
 
 
3. Esta semana morreu Hans Küng (1928-2021), um dos maiores teólogos da atualidade, padre católico romano e professor de teologia na Universidade de Tubinga, Alemanha. Muito crítico de certas posições da tradição católica (a infalibilidade papal e o sistema eclesiástico de poder) foi silenciado e dispensado de lecionar pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 1979. Em Junho de 2010, numa entrevista concedida a António Marujo, para o Público, afirmava: “Para mim, Jesus Cristo é um caminho de vida. Segui-lo é continuar a descobrir um sentido para a minha vida, o meu sofrimento e a minha luta, é um excelente modo de continuar, neste tempo, a encontrar a salvação” (7 Margens, jornal digital, 07abril). Já, em 1979, antes de ser suspenso, expressava o seu “fascínio” por Jesus numa conversa com Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, dizia: “Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical. Esta afirmação já não é suspeita, pois foi feita também – é com alegria que o digo – pelo novo Papa [João Paulo II].” E explicava: “Escrevi um livro com o título Ser Cristão. Ora, alguns criticaram-no, porque diziam que nele se falava demasiado do Homem. Mas hoje vê-se cada vez melhor que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.” (7 Margens, idem).
No último versículo do Evangelho de hoje lê-se: «Estes (sinais) foram aqui contados para que creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida no seu nome». O grande objetivo da fé no Ressuscitado é ter vida em Seu nome, mesmo quando os sinais da morte nos acompanham e fustigam. Foi esse o testemunho que Hans Küng nos deixou. Que Deus o tenha no Seu amor.  
 
+ Fernando
 
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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