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18º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 31/7/2022

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
18º Domingo Comum - Ano C
31jul2022

2 Reis 13,14-20ª; Salmo 28; Colossenses 3,1-11
 
S. Lucas 12,13-21
13Alguém do meio da multidão pediu a Jesus: «Mestre, diz ao meu irmão que divida a herança comigo.» 14Mas Jesus respondeu: «Amigo, quem me deu o direito de vos julgar ou fazer partilhas?» 15Depois dirigiu-se à multidão: «Tenham cuidado! Não se deixem dominar pela ganância, porque a vida de qualquer pessoa não depende da abundância dos seus bens.»
16A seguir apresentou-lhes esta parábola: «A quinta dum certo rico tinha dado uma grande colheita. 17E o rico pôs-se a pensar assim: “Que hei de eu fazer? Não tenho onde guardar a minha colheita! 18Já sei: deito abaixo os celeiros e faço outros maiores, onde guardarei o trigo e todos os meus bens. 19Depois poderei dizer para comigo: És feliz! Tens em depósito tantos bens que te vão dar para muitos anos. Não te rales: come, bebe e diverte-te.” 20Mas Deus advertiu-o: “Louco, esta noite vais morrer, e o que tens guardado para quem será?”»
21Jesus concluiu: «Assim acontecerá àqueles que só amontoam riquezas para si, mas que não são ricos aos olhos de Deus.»

1. Alguém pede a Jesus que intervenha a seu favor na contenda que mantém com o irmão por causa duma herança. E Jesus, o Filho de Deus, mostra, mais uma vez, a humildade que O caracterizava dizendo: “Amigo, quem me deu o direito de vos julgar ou fazer partilhas?”. De outro modo, ‘ninguém me concedeu autoridade para ser vosso juiz’. Na realidade, a única autoridade de que Jesus se revestiu foi a do amor assente na humildade (“Amou-os até ao fim” – S. João 13, 1).  E esta ‘autoridade’ não tem a ver com poder (“o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”– S. Mateus 8, 20), nem com imposição (“o jovem que, ao ouvir as palavras de Jesus, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” – S. Mateus 19, 22), nem com violência (na cruz, perante os insultos dos passantes, “Pai, “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” – S. Lucas 23, 34). Por outro lado, pregava o Reino de Deus com autoridade, como foi constatado pelos presentes na sinagoga de Nazaré (S. Marcos 6, 1-6)e toda a sua intenção era a transformação das mentes das pessoas para o amor a Deus e ao próximo.
Todavia, como o “Alguém do meio da multidão”, quantas vezes ‘olhamos’ para Jesus como se fosse o executor dos nossos desejos ou das nossas necessidades. O amor que está nEle e do qual podemos usufruir não é o da ação executiva, mas, o da mudança (conversão) na nossa vida que proporciona sentido (significado) ao que fazemos e pensamos no caminho de Deus.   

2. Quanto ao homem rico do Evangelho de hoje, temos de confessar que todos nós faríamos exatamente o que fez perante a colheita abundante que lhe coube naquele ano. Trabalhou arduamente na sementeira, amanhou como sempre a terra, esfalfou-se na colheita e, agora, com tanta quantidade que, naturalmente, se lhe exigia aumentar o espaço para a guardar. Até aqui, nada parece desmerecer de uma inteira anuência ao seu proceder. Porém, o homem acrescenta ao seu pensamento: Depois poderei dizer para comigo: És feliz! Tens em depósito tantos bens que te vão dar para muitos anos. Não te rales: come, bebe e diverte-te.”Isto é, vive somente. Esquece o que se passa à tua volta, fecha-te em ti próprio e disfruta do muito que tens sem a menor preocupação do que poderá acontecer aos teus vizinhos que necessitam. E como se pode ver esta realidade em tanta gente – mesmo considerada cristã – ‘afogada’ num consumismo atroz que destrói e que não deixa ver a felicidade fugaz das coisas, que se referencia pela acumulação gananciosa e egoísta, num esquecimento profundo de quem precisa, esteja próximo ou longe.
Ora, reparem nesta descrição de uma consulta de psicologia:
“Alguém chegou e, rindo com aparente boa disposição, comentou: “Sou uma pessoa bem-disposta, gosto do que faço, pratico desporto, divirto-me sem limites… Sim. A minha vida é mesmo boa. Tenho dinheiro, ganho bastante bem, o meu ambiente de trabalho é fantástico. Tenho quem quero, mas, realmente, não gosto de ninguém. É verdade, falta-me empatia. Não consigo senti-la por quem quer que seja. Não tenho paciência para as histórias dos outros, para as dificuldades deles, para as queixas, para as rotinas insuportáveis que toleram ou apreciam. Às vezes caio em envolvimentos fugazes e as pessoas querem continuar caminho para uma relação, mas eu não concedo. Nem pensar nisso. Não me interessa nada. Estou mesmo bem como estou. Faço o que me apetece, como me apetece, quando me apetece… Profissionalmente sou responsável. Acho que posso dizer isso. Ainda assim prefiro que não me chateiem muito…” (Margarida Cordo, psicóloga clínica e psicoterapeuta – “7Margens”, 29julho).
Não parece que estamos perante o homem rico da parábola?

3. E Jesus concluiu: «Assim acontecerá àqueles que só amontoam riquezas para si, mas que não são ricos aos olhos de Deus.» Oque é ser rico aos olhos de Deus?
O Apóstolo Paulo ajuda-nos a descobrir, de forma simples, o que é ser “rico” aos olhos de Deus. Parte dum princípio, “vós sois o povo de Deus, porque Ele ama-vos e escolheu-vos”, e conclui, “Portanto, é preciso que tenhais sentimentos de compaixão, bondade, humildade, modéstia e paciência”. Isto é, que vivamos conforme ao Reino apresentado por Jesus. Mas, o Apóstolo vai mais longe e explica, “ajudai-vos uns aos outros, e se alguém tiver alguma razão de queixa contra outro, deve perdoar-lhe. Assim como o Senhor vos perdoou, também vós deveis perdoar-vos uns aos outros”. E termina com uma excelente proposição, “Acima de tudo, tende amor, que é o que une perfeitamente todas as coisas. (…) E sede agradecidos.” (Colossenses 3, 12-14).
Pois bem, a riqueza a que somos chamados (tenhamos muitos ou poucos bens) fundamenta-se na gratidão a Deus pelo que dEle recebemos e, a partir daí, na abertura aos outros na ajuda, no perdão e na vivência em amor como Jesus nos mandou: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (S. João 15, 12).
 
+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana  
 
 
 

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