Subscreva a Newsletter da Igreja Lusitana
.

4º Domingo do Advento - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 19/12/2021

Download PDF

COMENTÁRIO BÍBLICO 
4º Domingo do Advento– Ano C
19dez2021

Miqueias 5, 2-4; Salmo 80, 2-8; Hebreus 10, 5-10

S. Lucas 1,39-55
39Por aqueles dias, Maria apressou-se em ir a uma povoação nas montanhas da Judeia. 40Entrou em casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando esta ouviu a saudação de Maria, a criança mexeu-se dentro dela. Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e disse em voz alta: «Abençoada és tu, mais do que todas as mulheres, e abençoado é o filho que de ti há-de nascer! 43Que grande honra para mim ser visitada pela mãe do meu Senhor! 44Mal ouvi a tua saudação, logo a criança que trago dentro de mim saltou de alegria. 45Feliz daquela que acreditou, porque nela se cumprirá o que foi dito da parte do Senhor.»
46Maria disse então: «A minha alma celebra a grandeza do Senhor 47e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, 48porque ele olhou com amor para esta sua humilde serva! Daqui em diante toda a gente me vai chamar ditosa, 49pois grandes coisas me fez o Deus poderoso. Ele é Santo! 50Ele é sempre misericordioso para aqueles que o adoram, em todas as gerações. 51Fez coisas grandiosas com o seu poder extraordinário. Dispersou os orgulhosos de pensamento e coração. 52Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. 53Encheu de bens os que têm fome e mandou embora os ricos de mãos vazias. 54Ajudou o povo de Israel que o serve, lembrando-se dele com misericórdia. 55Conforme tinha prometido aos nossos antepassados, a Abraão e seus descendentes para sempre.»
 
1. As narrativas dos Evangelhos de S. Lucas e S. Mateus a respeito do nascimento e infância de Jesus captam a nossa atenção de tal maneira que nos fixamos muito mais nos seus detalhes do que na mensagem que trazem para a nossa maneira de entender a vida. É que os evangelhos (todos os 4) não são biografias de Jesus, mas mensagens que nos querem transmitir um projeto de vida que somos chamados a seguir. Então, o que terá levado Lucas a, depois da narrativa da Anunciação, apresentar o episódio da Visitação apressada de Maria a Isabel, mãe de João Batista, numa cidade de Judá, distante de Jerusalém? Maria “cheia” da graça divina procura alguém com quem possa compartilhar o que só ela “sabe” pelo Espírito e que a compreenda e aceite. O que é que Lucas nos quer dizer? O que significa isto?
Desde o início, o nascimento de Jesus, o encontro com os humildes e pobres, com os sábios que se fazem humildes e viajam por terras distantes para virem ao Seu encontro e os outros, os pastores, que depois de O verem foram ao encontro com outros levando a alegria da sua visão (S. Lucas 2, 20), Lucas quer apenas dizer-nos que quando as pessoas são verdadeiramente tomadas pela pessoa de Jesus a tendência natural é o encontro com outros e a partilha da alegria que as abunda. A realidade divina em nós enche-nos de tal forma que não a podemos guardar só para nós e sentimo-nos impelidos a partilhá-la.

2. O chamado cântico de Maria – o Magnificat – inspira-se no cântico de Ana (I Samuel 2, 1-10) e em muitas outras passagens do AT (Bíblia de Jerusalém). “Deus, meu Salvador, olhou com amor para esta sua humilde serva!”. Uma das críticas que se fazem às religiões é a não definição de humildade, ou do que é ser humilde. Associa-se apenas a humildade em relação à superioridade divina, o que é fácil, pois advém do senso comum – Deus é superior a toda a gente e, portanto, todos nós temos de ser humildes perante Ele. Todavia, Maria, a humilde serva, não o foi apenas perante Deus, mas, exerceu a sua humildade perante os seus contemporâneos. Aí temos, uma outra mensagem da sua visita a Isabel. Até esta reconhece quando responde à sua saudação dizendo: Abençoada és tu, mais do que todas as mulheres, e abençoado é o filho que de ti há-de nascer! Que grande honra para mim ser visitada pela mãe do meu Senhor!”. Isto é, não obstante a grandeza de Mariaesta assume-a em humildade indo visitar a prima que, embora bem mais idosa, se posicionava numa patamar inferior nas benesses divinas.   
Deus olha sempre com amor para cada um(a) Seu(a) humilde servo(a). A questão é se cada um(a) de nós aceita ser “humilde servo(a)”. Ser humilde é o que há de mais difícil de praticar. Conhecer e assumir as nossas próprias limitações e fraquezas e agir de acordo com essa consciência no contexto da relação societária, procurando evitar a tentação de cavalgarmos sobre outras pessoas que sabem mais, pensam e atuam melhor do que nós, é realmente muito difícil. Não confundamos a humildade com modéstia, que geralmente se define como a oposição a um exibicionismo vaidoso, nem com a atitude de rebaixamento perante as outras pessoas, mas tão só o reconhecimento e a admissão das nossas falhas. E, não esqueçamos que Jesus “tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2, 6-8). Jesus, cujo nascimento vamos celebrar, foi humilde perante Deus e perante os homens, até lhes lavou os pés (S. João 13, 2-16).   

3. Quando se pergunta a alguém sobre como vai ser o seu Natal a resposta sai naturalmente: ‘ora,  com a família – filhos, netos e outros – o bacalhau, um copo de vinho, os presentes… e já está’. Não acham que a importância da festa merece algo mais? É certo que desde há alguns anos que se tem procurado “vender” a ideia de que o Natal é a festa da família. E para aqueles que não podem passar o Natal com as suas famílias, os doentes e pessoal de saúde nos hospitais, os presos, os bombeiros nos piquetes de serviço, os marinheiros e pescadores no alto mar, não tem Natal? E para os que não têm família e vivem sós, esquecidos, e para os sem-abrigo, na rua, não existe Natal? E, então, os migrantes que velam numa nesga de terreno por uma oportunidade para encontrarem a via da sua liberdade e o caminho para alcançar o seu sonho de felicidade, também não têm Natal? É preciso que se diga, bem alto, que foi exatamente para esses que Jesus nasceu. Nasceu para rasgar horizontes de alegria para quem vive triste; nasceu para fortalecer e libertar os que se abatem em insuficiências nas suas vidas; nasceu para que se ganhe um sentimento de que se é verdadeiramente amado(a) por Deus; nasceu para que no meio do nosso quotidiano ‘olhemos’ para o alto; nasceu para que o sonho e a esperança nos acompanhem e encham a vida. Sim, porque Jesus veio para que “tenhamos vida, e vida com abundância” (S. João 10, 10).   
Termino com uma citação dum texto de Ana Sofia Brito, 16dez21, no jornal digital ‘7 Margens’ intitulado “A dançarina em dezembro”: “Ajusta o papelão, aninha os membros para enganar o frio, engole a saliva a imaginar sobras de chocolate, dá a mão esquerda à direita a fingir doce companhia, sussurra “Feliz Natal” e adormece.”
 
+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 
 

Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica - Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.