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3º Domingo do Advento - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 12/12/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
3º Domingo do Advento– Ano C
12dez2021

Sofonias 3, 14-20; Salmo 126; Filipenses 4, 4-9

S. Lucas 3, 7-18
7João dizia às multidões que iam ter com ele para serem batizadas: «Que raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar ao castigo de Deus, que se aproxima? 8Mostrem pelas ações que estão verdadeiramente arrependidos, em vez de andarem a dizer: “Somos descendentes de Abraão.” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode fazer descendentes de Abraão. 9O machado já está pronto para cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo.»
10O povo perguntava a João Batista: «Que devemos então fazer?» E ele respondia: 11«O que tem duas túnicas deve dar uma a quem não tem nenhuma, e o que tiver comida, reparta-a com os outros.» 12Também lá foram cobradores de impostos para serem batizados e perguntaram a João: «Mestre, que devemos nós fazer?»  13Ele respondeu: «Não cobrem mais do que está determinado.» 14Houve também soldados que lhe perguntaram: «E nós, que devemos fazer?» «Não roubem a ninguém, usando a força ou fazendo falsas acusações, mas contentem-se com o que ganham», continuou a responder.
15O povo estava na expectativa e cada um se interrogava a si próprio se João não era o Messias. 16Mas ele explicou a todos: «Eu batizo-vos em água, mas está a chegar quem tem mais autoridade do que eu, e a esse eu nem sequer mereço a honra de lhe desatar as correias das sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 17Tem nas mãos a pá para separar, na eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no seu celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
18Era com estas e outras exortações que João Batista anunciava ao povo a boa nova.

1. João Batista, um homem impregnado de Deus (“Veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto” - S. Lucas 3, 2) recebia as pessoas que acudiam à sua pregação (arrependei-vos dos vossos pecados) e ao seu batismo (o apelo à conversão) com rigor e severidade chamando-lhes a atenção para a vertigem sobranceira em que viviam declarando-se descendentes de Abraão”, isto é, filhos de uma cultura religiosa em que assentava a sua segurança: Quem vos indicou que fugísseis da fúria que está para vir?” (tradução de Frederico Lourenço). Então, as multidões desesperançadas perguntavam: “Que devemos então fazer?” e João respondia-lhes, à medida das suas circunstâncias e profissões, que partilhassem o que tinham a mais com os outros que tinham a menos e que alterassem o seu proceder para restaurar o equilíbrio e a paz entre eles e os outros. É curioso! Perante os problemas que viviam nas suas vidas, João Batista aconselhava-os a que analisassem o seu comportamento e pensassem nos outros, nas suas necessidades e também nas injustiças que direta ou indiretamente lhes infligiam. Não lhes dizia para irem ao Templo cumprir as prescrições religiosas ou fazerem sacrifícios cultuais. Não é isto interessante? É que a conversão por que o profeta tanto clamava não era somente religiosa mas, e em primeiro lugar, uma mudança ética, de comportamento. Realmente, a nossa conversão – o voltar-se para Deus – passa sempre pela nossa relação com o próximo. Não há dúvida, João Batista ao anunciar desta forma “a boa nova” (o Evangelho) é realmente precursor de Jesus e Seus modos de atuar.

2. A novidade da pregação de João Batista – não se lhe reconhece algum milagre – impressionava de tal modo quem o ouvia, que no imaginário religioso do povo logo se começou a insinuar a possibilidade de ele ser o Messias. Ele respondia explicando: “Eu batizo-vos em água, mas está a chegar quem tem mais autoridade do que eu, e a esse eu nem sequer mereço a honra de lhe desatar as correias das sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo”. Ou seja, João estava bem consciente de que não era o Messias. Esperava Alguém que era tanto mais do que ele na hierarquia divina que nem sequer podia ser seu escravo (desatar-Lhe as correias das sandálias). E explicava a diferença comparando o seu batismo “com água” com o do que estava para vir “com o espírito santo e o fogo”, apresentando uma imagem ilustrativa do que queria dizer: “Tem nas mãos a pá para separar, na eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no seu celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga”. Mas, como a palavra pneuma (do grego) tanto significa “espírito”, como “vento”, como “sopro” e, considerando a frase seguinte da para separar o trigo da palha, parece que a tradução mais exata seria: “ele vos batizará em vento santo e em fogo” (em contexto de juízo divino, os ventos e as chamas referidos por Isaías 29, 6) como se lê na nota da ‘Bíblia’ de Frederico Lourenço).
O que há a reter deste texto é a declaração de João Batista, mais claramente: “Eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. (…) Convém que ele cresça e que eu diminua.” (S. João 3, 28-30). Um homem a quem as multidões se rendiam, porque viam nele algo de divino, que o procuravam com o propósito de encontrar um sentido para as suas vidas, que o seguiam a ponto de as autoridades civis e religiosas se sentirem amedrontadas e, no entanto, que hombridade, que honradez, que humildade, o que lhe veio a custar a vida (S. Mateus 14, 1-12).

3. Na leitura do NT de hoje (Filipenses 4, 4-9) S. Paulo recomenda “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos!”. Já na carta aos Gálatas o Apóstolo considerava que um dos frutos do Espírito é a alegria (Gálatas 5, 22), o que nos leva a pensar que é dom de Deus, faz parte da nossa identidade cristã. Isto não quer dizer que a alegria seja apanágio só dos crentes cristãos. Advém da aceitação e vivência da transcendência como parte da realidade existencial de cada um(a), seja cristã(o) ou não. Mas, para nós, cristãos, a questão da alegria deve ser algo de fundamental, que brote da nossa alma, que expresse a vida que Deus nos deu e existe em nós. Até Jesus, Ele próprio, ao contrário de João Batista, não se considerou um asceta, pelo contrário, conviveu com todos os que dEle se aproximavam, assistia a bodas e banquetes (S. João 2, 1; 12, 1; S. Lucas 7, 36; S. Marcos 2, 15-17, etc.), não tolerava jejuns (S. Marcos 2, 18-19), nem há referências a que tenha imposto penitências e mortificações. Ou seja, Jesus foi um homem que viveu com os outros e para os outros, o que é o mais importante (e o mais difícil) na vida. Ora, é neste sentido que enquadra o apelo de Paulo: alegrai-vos! É que a alegria que é intrínseca aos crentes não depende do humor, nem é um sentimento fugaz e efémero, decorre do Evangelho. Tem a ver com um estado de espírito no qual reconhecemos que a nossa vida está para lá da ‘espuma’ dos dias e assenta numa confiança esperançosa em Deus, revelado em Jesus Cristo, e no Seu amor reconfortante e alimentador do nosso serviço aos outros.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 
 

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