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2º Domingo do Advento - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 5/12/2021

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
2º Domingo do Advento– Ano C
5dez2021

Malaquias 3,1-4; Salmo 126; Filipenses 1,3-11

S. Lucas 3,1-6
1Estava-se no ano quinze do governo do imperador Tibério.
Pôncio Pilatos era então governador da Judeia, Herodes governava a Galileia, seu irmão Filipe governava a Itureia e a Traconítide. Lisânias governava a Abilena. 2Anás e Caifás eram os chefes dos sacerdotes.
Foi nessa altura que Deus falou no deserto a João, filho de Zacarias. 3João foi por todas as terras junto do rio Jordão e anunciava o batismo de arrependimento para perdão dos pecados. 4Isto aconteceu como o profeta Isaías tinha escrito no seu livro: 
Uma voz clama no deserto: Preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas. 5Todo o vale será aterrado, todo o monte e toda a colina serão aplanados. Os caminhos tortos serão endireitados e os pedregosos serão arranjados. 6E toda a Humanidade verá a salvação de Deus.

1. No Evangelho de hoje temos bem definida a ambiência do acontecimento, tanto o tempo cronológico – ano quinze do governo do imperador Tibério” – como o enquadramento geográfico, político e religioso com seus mandantes, como, ainda, o objetivo da missão de João Batista, ou seja, a salvação (libertação) de Deus para toda a Humanidade. Entre os exegetas, há quem diga que tais dados de tempo e pessoas não são históricos (José Mª Castillo “La Religión de Jesús”), mas, com tal referência no seu evangelho, S. Lucas afirma com clareza que ‘a Palavra de Deus’, em Jesus, entra na história humana. Isto é, tem a ver com todas as circunstâncias da pessoa humana, quem quer que seja, o que quer que faça, donde provenha, em particular, aquela que estiver em sofrimento e opressão. Assim, S. Lucas estabelece um sincronismo entre a história profana e a história da salvação, tal como já o havia feito anteriormente, no episódio do anúncio do nascimento de João Batista (S. Lucas 1, 5) e ao narrar o nascimento de Jesus(S. Lucas 2, 1-3).
Repare-se como Deus se ‘introduz’ na história humana. João Batista nasceu, por anúncio divino, de um pai (Zacarias) sacerdote e de uma mãe (Isabel) de linhagem sacerdotal (S. Lucas 1, 5-25)ambos de idade avançada. Por decorrência natural da sua filiação, naquele tempo, filho de sacerdote deveria vir a ser um sacerdote. Foi profeta, “e muito mais do que profeta. É dele que está escrito: ‘eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente, ele preparará o teu caminho diante de ti’”, assim o caracterizou Jesus. Na verdade, João foi mais do que profeta, porque, por desígnio divino, realizou a transição (‘o centro do tempo’, como alguém lhe chamou) da “Lei e os Profetas” para “o Reino de Deus” (S. Lucas 16, 16).
 
2. Mas, de João Batista, Jesus disse mais: “dentre os nascidos de mulher não há um maior do que João”,e continuou: “Todo o povo que o ouviu e até os próprios publicanos reconheceram a justiça de Deus (…) mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram o desígnio de Deus” (S. Lucas 7, 28-30). Ou seja, os que mais ‘perto’ estavam do ‘conhecimento’ da vontade de Deus foram os que a rejeitaram, não aceitando o batismo do arrependimento pregado por João. Ora, esta é uma questão da mais relevante importância que deve levar as Igrejas cristãs a questionar-se sobre se querem verdadeiramente assumir uma missão de testemunho no seguimento de Jesus Cristo, para que “toda a carne veja a salvação de Deus”, ou, se, de outro modo, se preocupam somente em captar pessoas para a sua atividade ritual e litúrgica (como era o caso dos escribas e fariseus). Queremos ou não “preparar o caminho do Senhor e abrir-lhe estradas direitas”? Ser arautos de uma novidade de vida que espelhe a nossa opção por Jesus nas mais diversas áreas da nossa existência?
Quem está atento a estas coisas percebe que se tem resvalado para um excessivo ritualismo de quase ‘via única’ para a salvação, desprovido de ligação adequada com a história de vida de cada um(a), como se não houvesse relação entre a vida quotidiana e a religião. Que nos adiantará uma fé centrada exclusivamente em devoções piedosas e rituais religiosos, se não nos levar a questionar as nossas condutas, os nossos modos de estar, a fim de que possamos contribuir para mudar este nosso mundo carregado de injustiças e sofrimentos? Lembremos as palavras de Jesus: Pelos seus frutos os conhecereis” (S. Mateus 7, 16)e “Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis em mim; mas, se as faço, mesmo que não acrediteis em mim, crede nas obras (…)” (S. João 10, 17-18). Ou seja, frutos e obras, referências a condutas e atos de espiritualidade latente a favor do bem de outros (S. Mateus 25, 31-46)onde a bondade, a justiça e a misericórdia manifestem a quem nos olha a salvação de Deus.

3. Hoje, na Igreja Lusitana, celebra-se o Domingo da Bíblia, no contexto da Oração Própria:
Bendito Senhor, Tu deste-nos as Escrituras para nos indicarem o caminho da salvação; ensina-nos a ouvir, ler, estudar e assimilar interiormente a tua santa Palavra com amor, paciência e oração, de tal modo que, fortalecidos pela sua inspiração, mantenhamos firme a esperança da vida eterna. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.
Assim, a decisão sinodal que o determinou reafirmou a ligação indómita da Igreja ao texto bíblico considerando-o a referência maior para a fé dos crentes em Jesus Cristo. Ao lê-la e meditá-la, em espírito de oração (não num seguidismo literalista doentio), descobre-se a necessidade da adesão pessoal à Sua divindade (“Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” – S. João 6, 68), e a importância da Sua humanidade como modelo de conduta ética (“Todo aquele que ouve as minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha”  – S. Mateus 7, 24).
No Guião para a leitura diária da Bíblia da Igreja Lusitana, ano litúrgico C (2021-2022), lê-se:
“O Deus da Bíblia é um Deus falante que se revela no concreto do nosso caminhar diário. Ler a Bíblia numa atitude de fé será pois abrirmo-nos à interpelação e à proposta de Vida que Deus tem para a Humanidade e para cada um de nós em particular. Será do acolhimento da revelação de Deus que a Sagrada Escritura nos oferece, que a nossa vida é transformada e o nosso caminhar de fé nos aproximará mais dos outros nas suas diferentes necessidades e esperanças”.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 

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