Carta de Natal - No Natal, "haja Deus"


 
Aos membros da Igreja Lusitana
No Natal, “haja Deus”

Em ano relativamente recente, cruzei-me na rua com um amigo de infância acompanhado de sua neta, uma menina de 3 a 4 anos. Em véspera de Natal dirigi-me naturalmente à criança perguntando o que esperava que o menino Jesus lhe trouxesse. Após uma pequena hesitação – pareceu-me que não tinha percebido a pergunta –, disse que tinha pedido ao Pai Natal um determinado brinquedo. Compreendendo o contexto da resposta da menina, insisti: “e o menino Jesus?”. Respondeu-me, decidida, perguntando: “quem é esse?!”. O avô, um pouco embaraçado, procurou explicar-me que agora os brinquedos pedem-se ao Pai Natal… Lembrei-me, logo, dos nossos Campos de Férias onde se têm encontrado adolescentes e jovens que nunca ouviram falar de Jesus nas suas ainda curtas vidas.
 
A festa do Natal, tal como os mais velhos a viveram, tinha por pressuposto o conhecimento, mesmo superficial, dos fundamentos da religião cristã. Toda a gente sabia, acreditando ou não, que o Natal era a festa do nascimento de Jesus, do menino Jesus, como se dizia. Era a incarnação de Deus na linguagem e nos costumes. Ora, tal contexto sociológico e religioso mudou.

Vivemos num mundo plural, o que significa entre outras coisas, que as pessoas têm direito à escolha, nem que seja daquilo que as possa prejudicar. Basta que aceitem as respetivas consequências. E a religião não escapa a esta outra maneira de estar, em especial no mundo ocidental. Por exemplo, em Inglaterra e no País de Gales o censo de 2011 revelou que o número de pessoas que se identificam como cristãos diminuiu de 13% desde 2001. Na década de 2001 – 2011, os cristãos diminuíram de mais de 70% para 59,3% da população. Todas as outras principais religiões registaram aumentos, com destaque para o Islão que passou de 3% para perto dos 5%. Só a percentagem de judeus é que se manteve idêntica, em 0,5% da população. Porém, o que agrava a preocupação dos lideres cristãos é que a categoria que registou o maior aumento em termos numéricos foi a dos que se declaram ateus e agnósticos, que em 10 anos passou de 15 para 25% da população, cerca de 14 milhões de pessoas. Para isso muito tem contribuído o ativo movimento ateísta que na última década procurou apresentar a religião como um obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento civilizacional. Não é de estranhar, portanto, que no significado do Natal a matriz cristã, da fé, se vá substituindo pelo registo publicitário das compras e das prendas, sem Deus.

Mas, então, porque é que, em geral, as pessoas, cristãs ou não, no Natal alteram as suas rotinas e se preocupam com coisas e pessoas de modo diferente da dos outros meses do ano? Creio que ninguém foge à “magia” do Natal. A sua simbologia – o presépio com as suas figuras e a árvore com as suas luzes – introduz as pessoas numa afetividade muito pessoal trazendo-lhes à memória a infância, por vezes longínqua, e a ambiência familiar. Talvez seja a figura do menino Jesus a tocar o coração das gentes, como qualquer criança com quem se cruzam na rua. Ou será, mesmo, porque o Natal se vive em tempo invernoso a exigir cuidados na defesa das intempéries, as pessoas, nesta altura do ano, privilegiam o aconchego do lar e dos outros, o resguardo de si próprias, uma espécie de relação estreita com a interioridade pessoal. Ora, é nesta circunstância que nos cabe a nós, cristãos, ser arautos de uma mensagem de confiança e esperança.

O nascimento de Jesus é parte da história da salvação iniciada no povo hebraico, em que Deus cumpre a promessa da vinda do Messias, transmitida pelos Profetas ao povo. Neste sentido, Jesus é a palavra de Deus feita vida, “aquele a quem Deus escolheu e enviou ao mundo” (S. João 10,36). No Natal, portanto, a esperança da antiga tradição hebraica transforma-se numa nova esperança, transmitida a um novo Povo pelo próprio Jesus, o Emanuel, Deus connosco (Isaías 7,14). Quer dizer, em Jesus, Deus dá-nos a conhecer que a esperança é parte essencial da vida humana e concede-nos a certeza da Sua presença para a alimentar e fortalecer. Parece-me, portanto, que, na celebração do nascimento do menino em Belém, devemos “ver” o abraço de Deus.
 
O abraço é, acima de tudo, uma manifestação física de uma amizade verdadeira, de um afeto que está para além do que racionalmente se possa compreender. “A amizade é o dom que não se explica”, diz-nos Tolentino Mendonça, e no abraço se põe tal amizade a nu, tudo se oferece, tudo se recebe e, dessa forma, tudo se expõe até ao âmago. Nada fica para além do abraço. Terminar uma franca conversa entre amigos com um abraço é como selar uma carta de afetos, dá-lhe legitimidade e permite-lhe circular. Por isso, quando Jesus diz “ninguém pode chegar ao Pai sem ser por mim” e “quem me vê a mim vê o Pai” (S. João 14, 6.9), quer dizer claramente que n’Ele se expõe o “todo” de Deus: recetivo, atento, disponível.
 
É, no Natal, naquele Menino, está o abraço de Deus! Afirmemo-lo com firmeza, como cristãos. Somos um povo que tem o seu fundamento genético na ressurreição de Jesus (“se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é inútil e a vossa fé é inútil também” – I Cor. 15,14) mas que “nasce” cada ano, no Natal, tocado pela certeza desse abraço divino a partir do qual toda a esperança é possível. Basta que façamos d’Ele o centro da nossa vida e que no exercício desta levemos o Seu abraço aos outros.
Desejo que neste Natal, como o dito brasileiro, “haja Deus” nos vossos corações.
 
 
                                              + Fernando


Centro Diocesano, V. N. Gaia, 14 de Dezembro de 2012.

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